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A bandeira actual da Cristandade III

06 de Novembro de 2026

Péricles Capanema

Péricles Capanema

A bandeira actual da Cristandade III

A bandeira actual da Cristandade, dois significados

 

            Chegamos à parte final do trabalho, a mais ligada aos factos presentes. O título do presente artigo tem dois significados, ambos desejados, ambos correctos, ambos relevantes. De alguma maneira, conteúdo e forma. O estudo da Cristandade, por sua importância intrínseca e relevância, bem como por certos traços fundamentais de enorme influência no presente, é assunto sempre actual. Na presente quadra histórica, temos ecos dela, se quisermos, resquícios da Cristandade.

 

Conteúdo

 

            Comecemos pelo conteúdo. Fixemos o olhar em traços relevantes da Cristandade, hoje percebidos geralmente em numerosas circunstâncias como resquícios dela no Ocidente, por tantos lados o seu herdeiro no tempo. Podemos considerá-la, por exemplo, como sociedade de direitos, tipos humanos, expressão política, presença militar, realidade religiosa, realidade económica. Ampliando, como cultura e civilização. Ou área de civilização. Em traços gerais, o Ocidente é constituído pela Europa (excluída a Rússia) e o mundo que dela nasceu. Fazem dele parte Estados Unidos, Canadá, América Latina, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas e até o Japão e algumas outras potências asiáticas de pequeno ou médio porte. Nos últimos casos, por absorver e adoptar a civilização ocidental, baseada na família (mesmo hoje estraçalhada), propriedade privada, livre inciativa, princípio de subsidiariedade, governo limitado por leis, prevalência do direito sobre o arbítrio. Esta área de civilização jamais existiria sem que a Cristandade fosse realidade viva, por séculos, na Europa, em especial na Europa medieval. Cumpre salvaguardar e aperfeiçoar os seus resquícios actuais.

 

Barreira contra o sórdido, o criminoso e a tirania

 

            Em choque com tal área de civilização, por alto, temos no plano externo a China, ladeada pela sua, cada vez mais notório, potência vassala, a Rússia, a mais da Coreia do Norte, Irão, Cuba, Nicarágua, entre outros países. No plano interno, de modo distinto, dentro da supra referida área de civilização, assistimos ainda a graves e persistentes processos de auto-demolição, merecem atenção especial no momento os Estados Unidos. Acentuo, a auto-demolição é generalizada, cobre a bem dizer todos as facetas da vida doméstica, social, política, religiosa, diplomática, psicológica, artística, económica. O triunfo das forças anti-ocidentais, quer no campo externo, quer no interno, fará despencar o mundo no lodaçal do sórdido, do criminoso e da tirania. Daí, a enorme e inafastável actualidade e importância da defesa dos valores e reais interesses ocidentais.

 

O Ocidente tem as suas raízes na Cristandade

 

            Recapitulo o que arriba prometi. Napoleão observou certa vez: «A repetição é a mais forte figura de retórica». Convém aqui evocar factos, tantas vezes esquecidos. Longinquamente, na Antiguidade, está a raiz original da Cristandade, a ambição romana, bafejada pela cultura helénica, de criar no mundo um espaço de convivência civilizada. Fora de tal espaço, tantas vezes o ameaçando, pulsava o que os romanos qualificavam de povos bárbaros. Tal ambição civilizatória, que, sob o fluxo dos decénios e centúrias, se reflectiu em leis, estruturas políticas, estilos de vida, organização social, aspirações, foi cristianizada (pela evangelização, purificada e aperfeiçoada) e deu origem, sob o alento dos Papas, com o passar também de décadas e séculos, à Cristandade. Foi incipiente em vários aspectos, teve carências, defeitos, chagas políticas e sociais. Contudo, o rumo geral foi ascensional, favorecia o bem comum, estimulava a perfeição tous azimuts de quem ali vivia. A Revolução Protestante, a Revolução Francesa e, finalmente, a Revolução Comunista, bem como correntes como o humanismo renascentista, o iluminismo, o nacionalismo, o absolutismo, despedaçaram a Cristandade, reduziram-na a farrapos, pálida realização do que outrora fora. Restaram saudades, ecos e resquícios, da doçura de vida então reinante em algumas manifestações da sua vida social, persistiu a veneração à atmosfera social e a instituições nascidas da pujança familiar e regional, a atenção foi atraída pelo respeito então em vigor ao direito dos grupos sociais nos vários estratos da sociedade e, por fim, houve consciência da paulatina elevação do tónus das relações humanas que germinava forte em partes da Europa. São Pio X na «Notre Charge Apostolique» tinha a Cristandade em vista quando ensinou sobre a questão social em 25 de Agosto de 1910: «Sobre esta matéria os princípios da doutrina católica são fixos e a história da civilização cristã aí está para atestar a sua fecundidade benfazeja. O Nosso Predecessor, de feliz memória, recordou-os em páginas magistrais, que os católicos ocupados em questões sociais devem estudar e ter sempre sob os olhos».

 

Estudá-la e tê-la sempre sob os olhos

 

            Concluiu o santo Pontífice: «Não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu, ela existe; é a civilização cristã». A civilização cristã a que se refere são Pio X foi a Cristandade, todos o sabem. De passagem este escrito é modesto cumprimento da directriz do Papa Sarto. Trato agora de objecção que pipoca aqui e ali. De maneira superficial muitos assentam que a difusão do racionalismo com as suas variantes está na origem da presente civilização ocidental; de modo diferente, do Ocidente, como o conhecemos hoje. Com esteio na soberania popular, teríamos o triunfo da razão que levaria ao governo limitado e à sociedade sujeita ao direito. Falso. Historicamente, a primeira grande experiência iluminista no mundo, a Revolução Francesa, levou imediatamente ao Terror e à ditadura militar, afogando a Europa em duas décadas de carnificinas e destruição de direitos. Mas deixemos tais «realizações» de lado. O racionalismo está na base da modernidade, não há dúvida. Todavia, o governo limitado e a prevalência do direito vêm de muito antes, tendiam a generalizar-se, já estavam enraizadas nos costumes europeus, de forma particular na «common law» que, em intensidades diferentes, teve os seus princípios fundamentais aplicados em todo o continente. Outro exemplo, a realidade viva dos «fueros», aqui lembrados como ilustração do direito de famílias, profissões e regiões que deviam ser respeitados pelo poder soberano. E não apenas nos locais de fala hispânica. Uma ilustração mais, o moleiro de Sans Souci com a sua frase celebrizada «ainda há juízes em Berlim» ao resistir a Frederico II da Prússia, ecoava costumes antigos, anteriores a 1785. No conto, François Andrieux apenas literatiza realidade amplamente existente de há muito, e não apenas na Prússia, ainda que antipatizada e minada pelo absolutismo. Poderia empilhar outros exemplos, a concisão o impede.

 

Forma

 

            Quais seriam as formas actuais de pelejar pela Cristandade? Tema vastíssimo, desborda em muito o presente trabalho. Contudo, alguma coisa sobre o modo já foi aventado atrás, pois ele não é senão a exibição do conteúdo da maneira mais adequada, convincente e efectiva. Não vou estender-me, como disse. Apenas lembrar que qualquer forma de combate precisa evidenciar convicção e lógica, colocar-se distante da impressão de falsidade, hipocrisia, fingimento ou dissimulação. Trago à baila exemplo histórico elucidativo, ainda que talvez inesperado, o amor do povo judeu pelo Templo de Jerusalém -- serve como uma espécie de metáfora. O judeu ama o Templo, venera as ruínas do Templo e se o muro ocidental cair reverenciará as pedras e a poeira que dali restarem. De igual modo, respeita os vestígios dos alicerces, o Arco de Robinson, os tanques de purificação e tudo o que o lembra. Através das gerações, não tira o luto pela sua destruição. E quando vai a Jerusalém, chora, tocando o Muro das Lamentações, a destruição dos seus templos, pranto de oração, celebração e esperança. Quer salvaguardar o que sobrou, fazer das ruínas marcos de restauração. Assim deveríamos ser em relação à ordem temporal cristã. Fortaleceria as forças de atracção e convencimento, e foi o que percebi nos textos postados em «Cristãos Atrevimentos».

 

Reverência e adesão ao calvário dos ucranianos

 

            Esta lida, ideológica e pacífica, posta a presente quadra histórica, tem traço primacial e inabdicável, pois esteado em doutrina. Nas duas frentes, externa e interna, o zelo empreendedor para preservar a força, a vitalidade e a capacidade de expansão do Ocidente, resquício mais importante do que foi a ordem temporal cristã. E aqui, salta aos olhos o calvário da Ucrânia, nação pequena e martirizada, atacada por ser muralha do Ocidente, que resiste há quase cinco anos (a invasão russa começou em 24 de Fevereiro de 2022), que com inclemência a quer subjugar, sufocando-a no sangue e na humilhação, para lhe roubar a independência e a integridade. No fundo do horizonte, frio, o imperialismo chinês observa a situação. E tremem a Polónia e as nações bálticas, sabem bem que podem ser as próximas presas do urso das estepes.

 

Fundo de quadro de continuidade e fidelidade

 

Em suma, o fundo de quadro da acção pública de «Cristãos Atrevimentos» (e do promotor, o IPEC), seu fio condutor, em que fulguram continuidade e fidelidade, é a defesa e promoção da ordem temporal cristã. A defesa de veneráveis tradições, a inconformidade pública diante de lesões ao instituto da propriedade privada, da livre iniciativa e ao princípio da subsidariedade, a pugna pela sanidade da família são aspectos relevantes da luta que tudo engloba (a pugna pela ordem temporal cristã), proclamada aliás em motivador documentos fundacional do IPEC: «O Instituto Português de Estudos Contemporâneos (IPEC) tem por objecto a defesa e promoção dos princípios e instituições fundamentais da Civilização Cristã». Que «Cristãos Atrevimentos» continue na mesma rota, com crescente eficácia, são os meus votos.

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