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A bandeira actual da Cristandade II

06 de Novembro de 2026

Péricles Capanema

Péricles Capanema

A bandeira actual da Cristandade II

Continuidade do Magistério

 

            A encíclica «Quas Primas» (11/12/1925) de Pio XI (1922-1939) é o diploma de maior influência neste particular. Representou a continuação de impulso de décadas e condensou ensinamentos e conduta apostólica constante. Entre o acervo doutrinário anterior, merecem relevo especial a «Quanta Cura» e o «Syllabus» (1864) de Pio IX (1846–1878), a «Diuturnum Illud» (1881), a «Immortale Dei» (1885), a «Rerum Novarum» (1891), em muitos dos seus tópicos, e a «Annum Sacrum» (1899) de Leão XIII (l878–1903). Após Leão XIII, a «Quas Primas» de Pio XI tem consonância profunda com todo o magistério e governo de São Pio X (1903-1914), que se desenvolveram sob o inequívoco lema de «Instaurare omnia in Christo» (Restaurar tudo em Cristo). No pontificado de Bento XV (1914-1922) há aspecto que convém destacar aqui: o incentivo à devoção ao Sagrado Coração de Jesus como caminho fundamental para alcançar o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Voltemos à encíclica do pontífice Ratti.

 

A Festa de Cristo Rei

 

            Pela «Quas Primas», Pio XI instituiu a festa litúrgica de Cristo Rei, originalmente fixada para o último domingo de Outubro, ou seja, no domingo que precedia a festa de Todos os Santos. A reforma de 1969 transferiu-a para o último domingo do Ano Litúrgico. Em 2026 será celebrada em 22 de Novembro. O Pontífice instituiu-a explicitamente para promover e fixar na mente dos fiéis o conceito do Reinado Social de Cristo, de outro modo, a Cristandade. «Quas Primas» enumera argumentos escriturísticos e teológicos decisivos, mas aqui, por falta de espaço, só colocarei o fundamento realçado por são Cirilo de Alexandria (375-444), Padre da Igreja grego: «Numa palavra, [Jesus Cristo] possui o domínio de todas as criaturas, não por ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza». Prossegue Pio XI: «Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de hipostática». Mais adiante, liga, como proveniente do mesmo impulso de restauração, a prática da consagração ao Sagrado Coração de Jesus com a Festa de Cristo Rei: «A autoridade e a realeza de Cristo foram já reconhecidas pela piedosa prática de se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo acto. Mais, por iniciativa e direcção de Leão XIII, todo o género humano foi felizmente consagrado a este Coração Santíssimo».

 

As alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana

 

            Após Pio XI, é indispensável salientar o ensino da doutrina social de Pio XII (1939-1958), realçado por circunstância reveladora: entre 1940 e 1958 o Pontífice fez catorze alocuções ao Patriciado e à Nobreza Romana. Destacá-las aqui, expressiva continuidade do magistério pontifício anterior, tem particular relevância por ligação próxima com «Cristãos Atrevimentos», como veremos. De início, o ensino pontifical ministrado em ambiente solene a duas instituições de grande relevância na Itália, as mais qualificadas representantes da ordem temporal cristã na Península, evidenciava o apreço que o Papa Pacelli tinha por elas e pela ordem social em que germinaram e sempre estiveram inseridas. Em tais alocuções, Pio XII indicou que, por meio da continuidade familiar, era possível preservar e aperfeiçoar na sociedade humana bens materiais e espirituais de enorme relevância para o progresso, ou, talvez melhor, para o aperfeiçoamento social. Mostrou ainda, desigualdades sociais, desde que proporcionais e harmónicas, em ambiente de prática religiosa séria, tinham função social destacada, favoreciam o bem comum e nobilitavam a dignidade humana. Apontou a conveniência de que instituições (e realidade social) com traços parecidos aos do Patriciado e da Nobreza Romana, enfim, de perfil moral e cultural semelhantes, aparecessem mundo afora, nutrindo assim impulsos ascensionais, indispensáveis ao bom funcionamento de ordens temporais saudáveis. E finalmente enfatizou, pela exemplaridade, na nossa época a nobreza, o patriciado e elites análogas teriam e têm enorme papel social, pois são chamadas a ser modelo de excelência e virtude. As catorze alocuções de Pio XII representaram proposta de autêntica restauração da ordem temporal.

 

«Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana»

 

            Meio século depois, «grosso modo», das referidas alocuções do Papa Pacelli, foi publicado em 1993 pelo prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) um livro (título acima), amplamente difundido e que se tornou referência no tema. E aqui entra de maneira particular a relação próxima de «Cristãos Atrevimentos» com a defesa da ordem temporal cristã. Com efeito, retro, no final do item «‘Nova Cristandade’, à vera, nem cristandade, nem nova» prometi relacionar ensinamentos tradicionais pontifícios com posições de «Cristãos Atrevimentos», começando por aqueles e, a seguir, apontando posições deste. É o próximo passo.

 

Objectivos do site «Cristãos Atrevimentos»

 

            Clique no «Sobre nós» do site «Cristãos Atrevimentos» e ali lerá: «Somos uma organização de católicos em defesa da Tradição, Família e Propriedade». Logo após, surge o objectivo: «Influenciar a Opinião Pública em defesa da Tradição, Família e Propriedade e demais valores da Civilização Cristã». De modo distinto, a sua meta primeira é lutar pela ordem temporal cristã. E foi o que despertou de início a minha simpatia. A aspiração do site, lembro uma vez mais, iniciativa do IPEC, é ser referência em Portugal na labuta ideológica contra-revolucionária. Impulsionado por quais princípios? Aqueles enunciados em «Revolução e Contra-Revolução», o principal livro do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Noto aqui, apenas de passagem, recebi convite de um dos dirigentes de «Cristãos Atrevimentos» para postar outro artigo no site -- o primeiro foi «A Escola de Frankfurt — mitos e realidade em olhar retrospectivo», parece, com boa recepção. Quem me convidou deixou em aberto o assunto. Pensei na presente matéria, texto em que tudo é de inteira e única responsabilidade minha, expressão singela de meu agrado pela orientação e título dados ao site.

 

Volta ao leito

 

            De outro modo, para entender melhor «Cristão Atrevimentos», fariam ainda falta no artigo uma mais ampla exposição sobre a doutrina social que fundamenta os ideais de Plinio Corrêa de Oliveira. Para tal, sob o ângulo que estamos analisando, é útil ter sob os olhos parte do editorial, redigido em Janeiro de 1951 por aquele líder católico para o número inicial de «Catolicismo». Lembro, tal publicação é mensário de cultura, inicialmente editado sob a égide da diocese de Campos, no Brasil, e hoje propriedade da Editora Padre Belchior de Pontes Ltda, com sede em São Paulo, sempre sob o mesmo ideário. O referido editorial aponta o rumo: «É o que procuramos definir na enumeração de princípios, marco liminar da nossa actividade». Define, o objectivo é a luta pela civilização cristã, e para tal recorre a Leão XIII: «Quando o conhecimento do Redentor se espalhou ao longe, quando a sua virtude penetrou até aos veios íntimos da sociedade, dissipando as trevas e os vícios da sociedade, então operou-se aquela transformação que, na era da civilização cristã, mudou inteiramente a face da Terra».

 

A nossa finalidade, grande ideal, a civilização de base católica

 

            Mais adiante, em glosa, observa o Autor: «A cultura e a civilização são fortíssimos meios de agir sobre as almas. [...] Como, pois, pode a Igreja desinteressar-se em produzir uma cultura e uma civilização? [...] O católico deve aspirar a uma civilização católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu. É esta a nossa finalidade, o nosso grande ideal». Bem mais tarde, Maio de 1980, no livro «Meio século de epopeia anticomunista», que narra parte da sua vida pública, o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, de forma resumida condensou de novo o ideal que o moveu vida afora: «Quando ainda muito jovem, considerei enlevado as ruínas da Cristandade; A elas entreguei meu coração; Voltei as costas para meu futuro; E fiz daquele passado carregado de bênçãos o meu porvir».

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