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A bandeira actual da Cristandade I

06 de Novembro de 2026

Péricles Capanema

Péricles Capanema

A bandeira actual da Cristandade I

«Por muito pouco que sejais, muito façais na santa Cristandade»

 

            «Cristãos atrevimentos», eloquente título do site (iniciativa do IPEC -- Instituto Português de Estudos Contemporâneos), todos o sabem, recorda Camões. «Não faltarão cristãos atrevimentos; nesta pequena casa lusitana; de África tem marítimos assentos; é na Ásia mais que todas soberana; na quarta parte nova os campos ara; e se mais mundo houvera, lá chegara». Atrevimentos, n’«Os Lusíadas», em século de conquistas e glórias militares, significava ter como habituais a valentia e o arrojo; em suma, cataratas de audácias heróicas, tantas vezes roçando na temeridade. E no adjectivo cristãos reluz a raiz católica do país. A escolha do nome para o site deixa ver, para os nossos dias e acontecimentos, ousadia, horizontes amplos, «saber de experiências feito», ainda que em geral com recursos limitados. «Vós, portugueses, poucos quanto fortes; que o fraco poder vosso não pesais; [...] que vós, por muito poucos que sejais, muito façais na santa Cristandade: que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!».

 

Ordem temporal cristã, anseio católico perene

 

            Camões respirava o ar da Cristandade, da sociedade das nações cristãs. Vivia naquele ambiente, considerava-o normal. Como se sabe, ela foi realização histórica da ordem temporal cristã (ou da civilização cristã, duas expressões de idêntico significado), anelo imorredouro da Igreja Católica, com berço na sua doutrina, expressa em numerosos documentos do Magistério. Nunca será anacronismo votado à extinção, enquanto a alma dos fiéis estiver perfumada e animada pela recordação do que outrora foi a Cristandade. Com alegria percebi, a primeira inspiração do site, seu «cristão atrevimento» de maior presença, é a bandeira desfraldada pela ordem temporal cristã, ainda que expressa em temas de especial actualidade para o público dos nossos dias. Para tal, valoriza situações injustamente colocadas à sombra, quando não guerreadas ferozmente. Combate nos seus posts o progressismo e o esquerdismo, mostrando-os como escravos de dogmas vazios e preconceitos injustificáveis. No total, presenciamos meritório agere contra inaciano, ágil, oportuno, tantas vezes indispensável.

 

Cristandade, atrevimento cristão e postura civilizatória

 

            Em nossos dias, dói dizê-lo, a defesa desassombrada da ordem temporal cristã, ou de algumas das suas características, representa real atrevimento cristão, pois são muitos os seus detractores e poucos os seus paladinos, todavia, bem considerada, é também, e cada vez mais, atitude civilizatória, diante dos ataques letíferos pelos quais passam incessantemente os valores ocidentais. E assim, a defesa da Cristandade, como se verá, impede retrocessos, ao mesmo tempo que torna mais difíceis as tentativas de promover medidas deletérias contra a presente ordem ainda em vigor no Ocidente.

 

As fundações do Ocidente estão na Cristandade

 

            Vamos a uma mais bem cuidada explicação. Descansam nos costumes e leis vigentes na Cristandade as bases sobre as quais se assenta o Ocidente, em linhas gerais as traremos à tona abaixo. Defendê-la, a Cristandade -- se quisermos, marcos da ordem temporal cristã -- significa fortalecer as raízes das liberdades actuais e as relações civilizadas entre pessoas, povos e Estados. Infelizmente, no seio da Igreja Católica, correntes progressistas (involuntariamente, espero, promotoras de regressão civilizatória) trabalham para que a ideia de Cristandade seja soterrada na indiferença geral. O trabalho correcto seria outro, desenterrá-la (simbolicamente, claro), adorná-la dos melhores adereços para destarte, com ufania, mostrá-la ao público, tarefa necessária, diria mesmo indispensável; passa além, contudo, do escopo limitado do presente trabalho.

 

«Nova Cristandade», à vera, nem cristandade, nem nova

 

            Convém agora voltar o holofote da atenção sobre marco importante na ladeira do declive. Na faina de fazer esquecida a Cristandade (e até mesmo recusada), certamente o passo de mais vasta repercussão, foi o proselitismo intelectual de Jacques Maritain (1882-1973). Em estudo amplamente divulgado, «O Humanismo Integral» (1936), que teve como subtítulo «Problemas temporais e espirituais de uma nova cristandade», o celebrado filósofo francês propôs, como na capa do livro se alardeia, uma «nova cristandade», compendiada no lema «sociedade laica, vitalmente cristã». A sua tese colocava de lado o objectivo tradicional de restauração da ordem temporal cristã -- estraçalhada em larga medida pela penetração generalizada dos princípios da Revolução Francesa -- substituindo-o pela propaganda de uma sociedade laica (na prática, enraizada no enciclopedismo, fonte contínua de laicismo intolerante), supostamente animada por valores cristãos. Pelos anos afora as teses maritainistas, abraçadas como programa renovador, tiveram enorme repercussão em sectores do Clero e da intelectualidade católica, com reflexos na vida política de muitos países. Por que não é Cristandade? Por amputar da sua proposta traços essenciais da Cristandade. Por que não é nova? Por repaginar a já então antiga proposta dos católicos liberais do século XIX. Com o seu triunfo, repiso, se apagaria no horizonte o ideal de restauração da ordem temporal cristã. Com a «Nova Cristandade» deu-se ruptura real, ainda que normalmente inconfessada, com longa série de documentos emanados do Magistério dos Papas, ademais com dilatada acção apostólica do Clero e do laicato durante o século XIX e parte do XX. «Cristãos Atrevimentos» não fez assim; com posições fundadas em doutrina sempre ensinada, padecendo discriminações injustas, hasteia brioso o ideal da continuidade, e assim reafirma adesão ao Magistério tradicional e fidelidade à linha de açcão multissecular de boa parte do Clero e do laicato. É a sua primeira linha de batalha, veremos a seguir, rememorando inicialmente o ensinamento pontifício e, a seguir, transcrevendo extractos significativos de documentos de «Cristãos Atrevimentos».

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