Não faltam informações sobre esse longevo bispo de Jerusalém, no final do século II. Eusébio de Cesareia dedica um capítulo inteiro da sua «História da Igreja» aos milagres realizados pelo santo, dos quais o mais conhecido foi o de transformar a água em azeite para as unções litúrgicas.
Por Eusébio de Cesareia ficamos também a saber que São Narciso foi o décimo terceiro bispo de Jerusalém, tendo presidido ao Sínodo de Cesareia no qual se deliberou, entre outras medidas, definir o Domingo para celebrar na Páscoa o dia da Ressurreição. As deliberações do Sínodo não agradaram a todos, principalmente aos bispos da Ásia Menor, e talvez por causa disso alguém tenha cogitado em se desembaraçar dele, tramando para tal uma acusação infamante.
Narciso não julgou oportuno defender-se e, para não dividir a própria comunidade em «inocentistas» e «culpabilistas», preferiu desaparecer de Jerusalém. Foi viver como eremita para o deserto da Nítria, até que uma das testemunhas que tinha jurado em falso decidiu dizer a verdade. Tinham-se passado, porém, já uns dez anos desde o seu desaparecimento e os cristãos de Jerusalém, considerando-o morto, já pediam a nomeação de novo bispo.
Estavam nisto quando, com espanto, mas também com alegria, o viram reaparecer. Logo lhe rogaram que retomasse o seu posto, ao que São Narciso acedeu, requerendo embora a colaboração de um bispo coadjutor que ele próprio quis escolher. Pôde assim confiar a cura pastoral ao seu amigo Alexandre, então bispo na Capadócia (que viria a ser Santo Alexandre de Jerusalém, mártir). São Narciso já tinha nesta época mais de 100 anos mas Santo Alexandre ainda ficou junto dele até ao dia em que morreu, com 116 anos de idade, enquanto orava ajoelhado.
São Narciso é recordado como grande homem de Deus, que viveu uma espiritualidade adornada pela humildade, pureza e espírito de penitência. A Igreja estabeleceu a sua festa para 29 de Outubro, dia do seu falecimento (provavelmente entre os anos 212 e 216). Na iconografia católica, é geralmente representado como bispo segurando uma flor de cardo, tendo junto de si uma jarra, certamente em alusão à água que milagrosamente transformou em azeite.