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Quem controla a inteligência artificial?

28 de Setembro de 2026

Colaborador Externo

Colaborador Externo

Quem controla a inteligência artificial?

João de Castanheda Lima

Nosso correspondente - Rio de Janeiro, Brasil

O debate público sobre inteligência artificial gira quase sempre em torno das mesmas questões: quais as profissões que ela vai eliminar? Irá ela tornar-se mais inteligente que o ser humano? Poderá ela agir de forma autónoma? Irá a máquina um dia dominar o seu criador?

Talvez essa não seja a questão decisiva. A questão decisiva é, na verdade: quem controla a inteligência artificial?

Uma conversa notável entre o escritor especializado em finanças Ernst Wolff e o empresário Dominik Kettner aborda directamente essa questão. O ponto de partida do podcast deles é a BlackRock, a maior gestora de activos do mundo, e o sistema Aladdin que é a sua plataforma de análise, risco e investimento.

Wolff descreve o Aladdin como a união de dois factores de poder da nossa época: dinheiro e dados. Isso identifica um problema central da futura ordem económica.

Dominik Kettner e Ernst Wolff merecem reconhecimento pela importante contribuição que deram à exposição desse problema. A questão levantada por eles será retomada aqui e aprofundada de forma independente. Afinal, trata-se de muito mais do que a BlackRock. Trata-se da estrutura de poder da chamada quarta revolução industrial.

15 biliões de dólares – o poder por trás da BlackRock

Vamos começar pelas dimensões.

Segundo os seus próprios dados, a BlackRock administrava cerca de 15,3 biliões de dólares americanos [triliões, na terminologia americana] no final do segundo trimestre de 2026. Com isso, a empresa continua a ser a maior gestora de activos do mundo.

É claro que esse dinheiro não pertence à BlackRock. Trata-se, na sua maioria, de activos de fundos de pensão, seguradoras, investidores institucionais e investidores privados. Mas é exactamente isso que torna a posição da empresa interessante. Não é preciso possuir património para exercer influência significativa sobre ele.

Quem dispõe da infraestrutura necessária para analisar activos na casa dos biliões, calcular riscos, estruturar carteiras e preparar decisões de investimento encontra-se num ponto estratégico do sistema financeiro internacional.

E é aí que entra o Aladdin. O nome significa Asset, Liability, Debt and Derivative Investment Network – ou seja, algo como «Rede de Investimentos em Activos, Passivos, Dívidas e Derivativos».

O Aladdin não é um programa de computador comum. É um sistema que integra gestão de carteiras, análise de risco, processamento de dados e processos de investimento. Não é utilizado apenas dentro da BlackRock, mas também por bancos, seguradoras, fundos de pensão e outros investidores institucionais.

A magnitude é impressionante. Já no ano de 2020, os activos analisados ou administrados pelo Aladdin foram estimados em pelo menos 21,6 biliões de dólares [triliões] americanos.

A título de comparação: os Estados Unidos geraram, em 2020, um Produto Interno Bruto de cerca de 21,4 biliões de dólares, enquanto a China registrou pouco menos de 15 biliões de dólares.

É claro que, em termos económicos, o património e o produto interno bruto anual não são a mesma coisa. Mas a comparação ilustra bem a dimensão.

Já naquela época, passavam por uma única plataforma financeira tecnológica activos em  ordem de grandeza que correspondia aproximadamente ao desempenho económico anual total dos Estados Unidos e a cerca de uma vez e meia o desempenho económico da China.

Portanto, não estamos a falar de um programa financeiro particularmente eficiente. Estamos a falar de uma infraestrutura técnica de importância global.

O capital por si só já não é suficiente

As grandes potências da sociedade industrial baseavam-se no capital, nos meios de produção, nas matérias-primas e na mão de obra. Detinha o poder quem possuísse fábricas, controlasse caminhos de ferro, dominasse bancos ou dispusesse de poços de petróleo.

Com a revolução digital, surgiu um novo factor: os dados. E a inteligência artificial confere a esses dados um significado totalmente novo. As informações não precisam mais ser apenas colectadas e armazenadas. As máquinas podem comparar biliões de registros de dados simultaneamente, reconhecer padrões, calcular riscos, analisar comportamentos e prever tendências. O que antes milhares de analistas humanos não conseguiam fazer, hoje consegue-se executar em segundos ou minutos.

Com isso, a fórmula do poder na economia está a mudar.

A questão não é mais apenas: quem possui o capital? Mas, cada vez mais: quem controla o capital, os dados, a capacidade computacional e os algoritmos ao mesmo tempo?

É exactamente nesse ponto que começa a verdadeira questão do poder da quarta revolução industrial.

Não é a máquina que domina – mas o ser humano com a máquina

No entanto, é necessário fazer aqui uma distinção fundamental: A inteligência artificial não é um sujeito soberano autónomo.

O Aladdin não possui um centro de dados.

O Aladdin não possui fonte de alimentação.

O Aladdin não possui acções.

O Aladdin não celebra contratos por conta própria.

O Aladdin não decide por conta própria quais os dados que recebe, que objectivos deve perseguir e que limites lhe são impostos.

Por trás da inteligência artificial estão as pessoas.

São as pessoas que desenvolvem os modelos.

São as pessoas que seleccionam os dados.

São as pessoas que montam os servidores.

São as pessoas que financiam os centros de dados.

São as pessoas que são donas das empresas.

São as pessoas que alteram os programas.

E são as pessoas que podem desligá-los.

É justamente por isso que este desenvolvimento é tão polémico.

Talvez o maior perigo nem seja o facto de que um dia as máquinas venham a dominar os seres humanos. O perigo reside no facto de que algumas pessoas, com a ajuda das máquinas, possam alcançar poder sobre outras pessoas, em escala até então quase inimaginável.

A inteligência artificial, portanto, não elimina o poder humano, mas multiplica-o.

A revolução atinge o pensamento humano

A primeira revolução industrial mecanizou a força muscular.

A segunda criou a produção industrial em massa.

A terceira trouxe os computadores, a digitalização e a Internet.

A quarta dá um passo decisivo adiante automatizando cada vez mais o trabalho cognitivo e os processos de tomada de decisão.

 

Uma máquina a vapor podia substituir cem trabalhadores. Mas ela não conseguia determinar a quem um crédito deveria ser concedido.

Não conseguia calcular qual candidato teria mais hipóteses de sucesso.

Não conseguia analisar milhões de consumidores.

Não conseguia deduzir tendências políticas a partir de fluxos gigantescos de dados.

 

Mas a inteligência artificial pode actuar exactamente nessas áreas.

O Fundo Monetário Internacional estima que, nas economias desenvolvidas, até 60% dos postos de trabalho possam ser afectados pela inteligência artificial. Ao mesmo tempo, o FMI adverte que esse desenvolvimento pode agravar as desigualdades existentes.

A Organização Internacional do Trabalho também prevê mudanças enormes. De acordo com o seu estudo de 2025, cerca de um em cada quatro empregos em todo o mundo está num campo de actividade que se encontra, pelo menos parcialmente, sujeito à IA generativa. Em países de alta renda, a proporção é de 34%. A OIT, no entanto, espera com mais probabilidade uma mudança profunda do que a eliminação completa desses empregos.

Portanto, não estamos necessariamente à beira de um mundo sem trabalho. Mas estamos diante de uma sociedade na qual o valor do trabalho humano pode sofrer uma mudança dramática.

A nova pirâmide social

É aqui que residem as consequências possivelmente mais significativas.

 

A sociedade industrial clássica apresentava — de forma bastante simplificada — uma classe económica alta, uma ampla classe média e uma grande classe trabalhadora.

A sociedade da IA poderia dar origem a uma pirâmide diferente.

No topo dela poderia estar uma elite tecnológico-financeira relativamente pequena com um poder que não se basearia mais apenas no capital.

Ela controlaria, simultaneamente: capital; dados; capacidade computacional; algoritmos.

Essa camada poderia incluir os proprietários de grandes empresas de tecnologia, gestores globais de património, grupos de nuvem, operadores de plataformas, bem como aqueles que têm acesso aos modelos de IA mais potentes e aos maiores bancos de dados.

Essa elite dispõe de algo que as elites económicas anteriores não possuíam: ela não se limita a investir e produzir. Ela pode, ao mesmo tempo, analisar o comportamento de milhões de pessoas: consumo; transacções financeiras; comunicação; interesses; preferências; padrões de deslocamento; tendências políticas.

Tudo pode ser transformado em dados e, posteriormente, processado por meio de algoritmos. Fundem-se aqui o poder económico e o poder da informação.

Uma nova classe média extremamente produtiva

Da nova classe poderia surgir um segundo grupo: uma classe média altamente produtiva, consideravelmente fortalecida pela IA.

Médicos, engenheiros, advogados, cientistas, consultores, empresários, jornalistas, artesãos e outros profissionais autónomos não têm, de forma alguma, que desaparecer. Pelo contrário. Muitos profissionais poderiam tornar-se consideravelmente mais eficientes com a ajuda da inteligência artificial.

Hoje, uma única pessoa pode realizar tarefas para as quais, antigamente, seria necessário um departamento inteiro.

Uma pequena empresa pode actuar em todo o mundo.

Um médico pode consultar bases de dados médicas cuja análise antes seria impossível.

Um engenheiro pode realizar cálculos complexos numa fracção do tempo que levava antes.

Essa é a grande oportunidade produtiva da inteligência artificial.

 

Mas é justamente nisso que reside uma nova relação de dependência.

O empresário utiliza a IA. Mas será que ele a possui?

Ele utiliza a nuvem. Mas será que ele é dono do centro de dados?

Ele trabalha com um modelo. Mas será que controla o seu desenvolvimento?

Ele paga pelo acesso. Mas esse acesso pode ser alterado, restringido ou revogado.

Surge então uma relação paradoxal: A capacidade de cada indivíduo pode crescer enormemente, enquanto, ao mesmo tempo, aumenta a sua dependência de poucas infraestruturas técnicas.

E o que acontece com os demais?

Resta aquela parcela da sociedade cuja actividade económica, em vez de ser aprimorada pela IA, acaba por ser desvalorizada.

Nem todo o funcionário administrativo se tornará empreendedor de IA. Nem todo o contabilista se tornará um cientista de dados. Nem todo o tradutor, assistente administrativo, designer ou funcionário de escritório poderá continuar a exercer a sua actividade actual nas mesmas condições.

Essas pessoas não precisam necessariamente de ficar desempregadas. Mas o seu poder de negociação económica pode diminuir. As suas funções podem tornar-se mais facilmente substituíveis.

O seu valor de mercado pode cair em relação àqueles que possuem capital ou que sabem utilizar a IA de forma particularmente produtiva.

 

Com isso, uma antiga questão social retorna de forma totalmente nova.

No século XIX, ela era: Quem possui os meios de produção?

No século XXI, ela poderia ser: Quem possui os meios de produção digitais do pensamento?

A classe média decide sobre a liberdade

É exactamente por isso que o futuro da classe média é decisivo.

Entre o indivíduo e os grandes centros de poder, na sociedade ocidental, havia tradicionalmente uma ampla camada de proprietários independentes.

Empresas familiares.

Oficinas artesanais.

Profissionais autónomos.

Indústria de pequeno e médio porte.

Agricultura.

Varejo.

Empresas regionais.

 

Essas estruturas não apenas geraram prosperidade. Elas distribuíram poder.

 

Uma sociedade com milhões de proprietários autónomos é algo fundamentalmente diferente de uma sociedade na qual milhões de pessoas, embora exercendo actividades económicas diversas, continuam dependentes da infraestrutura técnica de um pequeno número de plataformas globais.

A questão decisiva, portanto, não é se a inteligência artificial deve ser utilizada. Essa decisão já foi tomada há muito tempo.

A questão é: A IA aumentará a autonomia económica – ou acelerará a concentração do poder económico?

O ciclo auto-reforçador dos gigantes

As grandes empresas possuem uma vantagem estrutural. Elas têm milhões de clientes. Esses clientes geram dados. Mais dados aprimoram os algoritmos. Algoritmos melhores aprimoram produtos e previsões. Produtos melhores atraem mais clientes. Estes, por sua vez, fornecem novos dados.

Assim surge um ciclo: O capital gera dados. Os dados aprimoram a inteligência artificial. A inteligência artificial aumenta a produtividade e o retorno sobre o capital. Lucros maiores financiam centros de dados, bases de dados e modelos de IA ainda maiores.

O ciclo recomeça – só que em nível mais elevado.

É aqui que surge o risco real de um oligopólio tecnológico.

O problema não é o mercado livre em si. O problema surge quando as condições da livre concorrência desaparecem e poucos actores controlam a infraestrutura sem a qual os seus concorrentes mal conseguem operar.

O capitalismo de dados

As teorias económicas clássicas analisam o poder principalmente por meio do capital, da propriedade, do trabalho, dos preços e dos mercados. Todas essas categorias continuam a ser necessárias. Mas já não são suficientes. A elas se somam três novos recursos de poder: dados, poder de computação e algoritmos.

O proprietário de fábrica do século XIX sabia o que a sua fábrica produzia.

Uma plataforma digital global do século XXI pode saber o que milhões de pessoas compram, procuram, lêem, visualizam e rejeitam. A inteligência artificial pode, a partir disso, desenvolver padrões de comportamento e previsões. Quando esse poder da informação se une a triliões em capital, surge uma forma de poder historicamente inédita.

É exactamente nisso que reside o verdadeiro significado do Aladdin. Não na ideia de uma máquina misteriosa que, em algum lugar, governa o mundo de forma autónoma. Mas no facto de que o sistema mostra de forma exemplar o que acontece quando capital, dados e capacidade de tomada de decisão algorítmica se unem na mesma infraestrutura.

A pergunta errada: o que quer a IA?

Talvez seja por isso que grande parte do debate actual sobre IA passe ao lado do problema central. Nós perguntamos: a IA vai adquirir consciência? Vai substituir-nos? Vai agir de forma autónoma?

Mas a questão mais imediata é: quem é o dono dela?

Quem é o dono dos dados? Quem controla os modelos? Quem constrói os centros de dados? Quem controla a energia? Quem decide sobre acesso e exclusão? Quem determina os limites dos programas?

E, acima de tudo: Quem pode alterá-la – ou desligá-la?

A inteligência artificial não é nem liberal nem totalitária. Ela pode permitir que um pequeno empresário concorra com uma grande empresa. Ela pode melhorar os diagnósticos médicos. Pode acelerar a pesquisa. Pode gerar prosperidade. Mas essa mesma tecnologia pode ser usada para vigilância, manipulação e concentração económica.

Não é a máquina que decide isso. São as pessoas que decidem.

No fim das contas, o que importa é o ser humano

Assim, a questão vai muito além da economia e da tecnologia. A quarta revolução industrial atinge o Ocidente num momento em que muitas das suas instituições tradicionais já estão enfraquecidas:

A família.

A Igreja.

As comunidades locais.

As associações.

A Pequena e a média empresa independente.

Os laços sociais consolidados entre o indivíduo e o Estado.

Todas essas instituições fazem parte do alicerce histórico da civilização ocidental e cristã. Por trás delas está uma determinada visão do ser humano. O ser humano não é apenas um produtor. Não é apenas um consumidor. Não é apenas mão de obra. Não é apenas um eleitor. E muito menos apenas um conjunto de dados.

A Civilização Cristã baseia-se na concepção de uma pessoa humana cuja dignidade não é conferida nem pelo Estado, nem pelo mercado e, muito menos, por uma máquina. Daí surgiram conceitos de responsabilidade, consciência, família, propriedade e liberdade – e da necessária limitação de todo poder secular.

Uma sociedade totalmente tecnocratizada, por outro lado, ameaça reduzir cada vez mais o ser humano a características mensuráveis. As suas preferências são analisadas. O seu desempenho é quantificado. A sua capacidade de crédito é calculada. O seu comportamento é previsto. A sua atenção é comercializada. As suas decisões são influenciadas.

A pessoa transforma num perfil. A experiência transforma-se em dados. O discernimento transforma-se em algoritmo.

Isso não seria apenas mais um avanço técnico. Seria uma transformação da visão do ser humano.

A luta pela civilização já começou

Se essa chamada quarta revolução industrial se desenrolar exclusivamente segundo os princípios da eficiência, da concentração e da controlabilidade técnica, ela irá acelerar um processo que já é visível no Ocidente há décadas: A destruição do património social, cultural, filosófico e religioso da civilização ocidental e cristã.

Uma sociedade livre não é composta por indivíduos controlados de maneira optimizada. Ela precisa da família. Precisa da propriedade. Precisa da tradição. Precisa da religião. Precisa de instituições sociais independentes. Precisa de limites ao poder.

E, acima de tudo, precisa da convicção de que o ser humano é mais do que aquilo que pode ser armazenado, medido e calculado a respeito dele. Por isso, o verdadeiro perigo da inteligência artificial não reside no facto de que, um dia, ela elimine o poder humano.

O perigo reside no facto de que ela multiplicará o poder humano em escala até então desconhecida.

A questão decisiva do século XXI, portanto, não é: o que a inteligência artificial fará conosco?

Mas sim: Quem poderá, com a ajuda da inteligência artificial, exercer poder sobre outras pessoas – e quem estabelecerá limites a esse poder?

 

Da resposta a essa pergunta depende muito mais do que apenas o futuro da nossa economia.

Depende do que restar da civilização livre, ocidental e cristã.

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