Jeanne Smits
Com a aproximação a visita do Papa Leão XIV a França, o Centre européen pour la justice et le droit (Centro Europeu para a Justiça e Direito - ECLJ) acaba de publicar um relatório impressionante com o título Sofrimentos e esperança da Igreja em França1, um retrato exaustivo que apresenta não apenas o aspecto sociológico de um declínio quantificado, mas também a realidade, simultaneamente, dos obstáculos cada vez mais numerosos com que se depara a fé histórica deste país e de um início de renascimento, modesto mas real.
A obra, dirigida por Grégor Puppinck, director do ECLJ, com a colaboração de Constance Avenel, responsável pela defesa da liberdade da Igreja no ECLJ, tem o mérito de abranger todos os domínios em que o laicismo impõe a sua lei, seja no direito da família, na educação e no ensino, nos cuidados de saúde, nas chamadas leis de bioética que estão a tornar o aborto e a eutanásia opções pré-estabelecidas, no controlo financeiro público, que permite a ingerência em muitas instituições católicas de educação ou de cuidados de saúde, ou na perseguição de um pretenso «separatismo» que impõe uma tutela sobre os cristãos, sem conseguir «conter a expansão do islamismo em França, nem «converter» as jovens gerações muçulmanas aos valores da República, pelo contrário», um objectivo que não se ousa declarar publicamente e que se dissimula na perseguição de qualquer expressão religiosa, acabando por visar essencialmente os católicos.
O retrato do catolicismo francês sitiado começa pelo princípio
O que salta imediatamente à vista é o carácter coerente da constatação. Sofrimentos e esperança da Igreja em França não se limita a fazer um inventário de tudo o que hoje restringe a expressão da fé em França, quer seja nos lares de idosos (EHPAD) associados ao Estado, onde se torna cada vez mais difícil conferir uma dimensão espiritual aos cuidados e à vida, quer nas escolas católicas sob contrato, onde a oração antes das aulas se torna o símbolo de proselitismo que as autoridades públicas querem fazer cessar.
Num prefácio particularmente marcante, Grégor Puppinck assinala a posição absolutamente única da França na Europa no que diz respeito à laicidade tal como a pratica: «É certo que a França não é o único país em processo de secularização, mas é a única nação católica europeia que perseguiu regularmente a Igreja, assassinou o seu clero, expulsou os seus religiosos, espoliou os seus bens, proibiu o seu apostolado. Esta perseguição, reiterada desde 1790, traumatizou os católicos.»
Ocorreram outras perseguições noutros países – em Espanha ou em Portugal, para citar apenas estes. Mas, como recorda este prefácio, a obra da Revolução Francesa deu impulso a uma realidade que se prolongou até aos dias de hoje.
O relatório do ECLJ, retrato lúcido do catolicismo francês
«A Revolução não foi um divórcio entre a França e a Igreja, mas uma repulsa violenta e sangrenta. Foi desta ruptura que nasceu a República, tendo como princípio a rejeição da identidade religiosa fundadora da França. Desde então, a República tem-se construído em oposição à França católica, para lhe tomar o lugar e substituir o Evangelho pela sua filosofia ateia. Trata-se, segundo a expressão de São Pio X, de “descatolicizar a França”», escreve Grégor Puppinck. Nem eufemismos, nem rodeios: é isso que permite justificar a gravidade do teor de todo o relatório, numa abordagem filosoficamente e historicamente fundamentada e expressa com uma força tranquila.
Vindo de uma instituição, o ECLJ, cuja voz é reconhecida como parte terceira perante os tribunais europeus e que também se manifesta junto da ONU (recentemente com grande sucesso 2, ao conseguir obter junto deste organismo uma intervenção junto do Conselho Constitucional para fazer reconhecer o carácter contrário à liberdade da Igreja que constituiria uma lei da eutanásia sem direito à objecção de consciência para as instituições confessionais), isto mostra que nada está jamais perdido, que é preciso defender os princípios e não ter medo de dizer as coisas como são.
O facto de isso ser feito com sabedoria, sem polémica, mas com firme afirmação da realidade e do que a religião que fundou a França tem hoje de aí sofrer, merece ser aplaudido. Acima de tudo, este trabalho tem de ser útil.
O catolicismo francês: entre a perseguição institucional e as falhas da Igreja em França
Enquanto se aproximava a viagem pontifícia, o Vatican News traçava um retrato da Igreja em França apenas com números, aliás desastrosos no que diz respeito às vocações e à prática religiosa dos católicos. A obra do ECLJ dá-lhes corpo, sublinhando simultaneamente a enorme dificuldade da transmissão da fé católica na França desde 1965, data do fim do Concílio Vaticano II, a sucessão de medidas tomadas para impedir a Igreja e as famílias católicas de se afirmarem em solo francês, a perda de esperança e a multiplicação de estados depressivos, mesmo entre os jovens e, ao mesmo tempo, o aumento dos baptismos de adultos, das grandes peregrinações, essencialmente centradas na prática religiosa tradicional e a multiplicação espectacular das escolas independentes não contratualizadas, onde se consegue simultânea e efectivamente escapar à limitação das escolas católicas contratualizadas em relação ao ensino público e aos programas que contradizem frontalmente muitos aspectos da doutrina e da moral católicas.
Trata-se de um relatório sob a forma de um balanço preciso que não deixa de incluir no seu horizonte a perseguição legal e os ataques criminosos e delituosos contra os santuários católicos e os próprios fiéis, em constante aumento. Tudo isto é abordado ao nível das estatísticas, mas também das leis e da ausência de acção sistemática por parte do Estado, que concentra os seus esforços de combate à discriminação em actos anti-religiosos que não dizem respeito aos cristãos.
O interesse de tal síntese em 78 páginas consiste em fazer emergir a existência de um verdadeiro pressuposto anticatólico do Estado. As primeiras páginas de Sofrimentos e esperanças da Igreja em França apresentam tudo isto de forma sistemática e resumida sob a forma de quadros, revelando um sistema de total coerência da acção do Estado, ao mesmo tempo que se questiona sobre a evolução da fé e dos costumes num país que perdeu o próprio fundamento da sua identidade. No entanto, este fundamento torna-se perfeitamente claro para alguns convertidos, nomeadamente do islamismo que, ao optarem (com que dificuldade em face da sua comunidade de origem e mesmo em França!) por aderir a Cristo, acabam por compreender, como dizem, o que é o apego à sua nova pátria. Vários testemunhos nesse sentido pontuam o relatório: é o ponto de partida da verdadeira solução contra um alegado «separatismo» anti-francês.
O retrato do catolicismo francês ficaria incompleto sem os seus sinais de esperança
Tudo está actualizado. O folheto contém dados que vão até ao início de Setembro de 2026, onde se observa simultaneamente uma diminuição, ao longo de mais de setenta anos, dos baptismos, dos casamentos religiosos, da crença no próprio Deus, e pequenos sinais de despertar, uma vez que o número de inscrições nos seminários aumentou 45% no ano passado em comparação com os anos anteriores e que milhares de jovens estão a descobrir a fé. É verdade que se parte de um nível muito baixo. Além disso, a ECLJ observa que estes números não têm em conta as entradas nos seminários tradicionais desde 2021, sendo certo que este estudo não negligencia nenhuma faceta do catolicismo francês.
Enquanto o Papa Leão XIV fará em Lourdes uma oração pela França 3 especialmente composta para a ocasião, pedindo que as famílias «sejam generosamente abertas à vida», o duro diagnóstico feito pelo relatório da ECLJ constata simultaneamente o aumento sem precedentes dos abortos em França e a terrível queda da taxa de natalidade, que desceu agora para 1,56 filhos por mulher.
A França, tão amplamente privada da sua bússola espiritual, já não substitui as suas gerações, mas sabe a quem recorrer: à Imaculada Conceição, que a marcou tanto com a sua proximidade.
A França, insiste o relatório, sempre foi chamada à «altura da sua missão» pelos sucessivos soberanos pontífices. «Deus não abandona o seu povo», conclui o relatório da ECLJ: «Apesar da pressão institucional e das graves falhas da instituição, a Igreja sobrevive e reencontra a sua juventude: aumento histórico dos baptismos de adultos e adolescentes, fervor renovado da juventude, multiplicação das iniciativas missionárias. É esta Igreja, posta à prova, mas viva, e fiel à sua promessa baptismal, que a visita do Santo Padre vem confortar.»
O relatório pode ser transferido directamente 4 do site da ECLJ e contribuirá eficazmente para alimentar a reflexão de todos aqueles que não ficam indiferentes ao baptismo da França, filha primogénita da Igreja, há mais de 1500 anos.
Fonte: https://reinformation.tv/eclj-portrait-catholicisme-francais-smits/
Notas:
- https://eclj.org/religious-autonomy/french-institutions/souffrances-et-esperance-de-leglise-en-france?lng=fr
- https://reinformation.tv/euthanasie-conseil-constitutionnel-conscience-smits/.
- https://www.france-catholique.fr/nous-te-prions-pour-la-france-la-priere-de-leon-xiv-a-notre-dame-de-lourdes.html
- https://eclj.org/religious-autonomy/french-institutions/souffrances-et-esperance-de-leglise-en-france?lng=fr