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Os enganos que preparam a guerra

17 de Setembro de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

Os enganos que preparam a guerra

A história apresenta inúmeros exemplos de guerras preparadas através de notícias manipuladas e agressões simuladas em operações que hoje definiríamos como «guerra híbrida». Dois episódios significativos ocorreram em 1939, na sequência do infame Pacto Molotov-Ribbentrop: o ataque nazi à estação de rádio alemã de Gleiwitz, atribuído à Polónia, e o bombardeamento russo da aldeia soviética de Mainila, imputado à Finlândia. Em ambos os casos, o agressor construiu uma versão dos acontecimentos que lhe permitisse apresentar-se como vítima.

A 23 de Agosto de 1939, em Moscovo, os ministros dos Negócios Estrangeiros Viacheslav Molotov e Joachim von Ribbentrop assinaram, na presença de Estaline, o pacto de não agressão entre a União Soviética e a Alemanha nacional-socialista. Um protocolo secreto delimitava as respectivas esferas de interesse na Europa Oriental, prevendo uma divisão do território polaco e colocando a Finlândia na esfera soviética. O acordo facilitou assim as agressões que se seguiram: Hitler podia atacar a Polónia sem recear uma intervenção soviética contra si; Estaline podia exercer a sua pressão sobre a Finlândia, contando com a aquiescência alemã.

Na noite de 31 de Agosto de 1939, poucas horas antes da invasão da Polónia, um pequeno grupo de agentes do serviço de segurança das SS entrou na estação de rádio de Gleiwitz, cidade da Alta Silésia que na altura pertencia à Alemanha, hoje Gliwice, na Polónia. À frente do grupo estava Alfred Naujocks, encarregado por Reinhard Heydrich de simular um ataque polaco.

Os homens ocuparam as instalações e fizeram transmitir uma breve mensagem em polaco, com conteúdo hostil à Alemanha. Dispararam alguns tiros e abandonaram a estação. A acção devia parecer um ataque de um grupo de insurgentes ou sabotadores polacos contra uma instalação alemã. No depoimento sob juramento prestado em Novembro de 1945 e incluído no processo de Nuremberga, Naujocks explicou que Heydrich pretendia obter uma prova concreta das supostas agressões polacas, que pudesse ser utilizada pela propaganda e pela imprensa estrangeira. O seu relato documentava, portanto, a relação directa entre a preparação do incidente e a construção da justificação pública da guerra. (Depoimento de Alfred Naujocks).

A encenação incluía também uma vítima humana. Na estação foi deixado o corpo de Franciszek Honiok, um habitante da Alta Silésia conhecido pelas suas simpatias polacas, detido pela Gestapo e assassinado para fornecer uma prova falsa da incursão. Um homem assassinado tornava-se assim um elemento da encenação: o suposto agressor abatido no local do ataque. Gleiwitz fazia parte de uma série de provocações organizadas ao longo da fronteira, destinadas a reforçar a imagem de uma Alemanha sujeita a intoleráveis actos de violência por parte da Polónia (https://www.historyhit.com/gleiwitz-incident-explained/?utm_source=chatgpt.com). Ao amanhecer de 1 de Setembro, a Wehrmacht invadiu a Polónia. A rapidez e a amplitude da ofensiva demonstravam que a operação militar tinha sido preparada bem antes do incidente. A 17 de Setembro, também o Exército Vermelho entrou na Polónia pelo leste: a divisão acordada entre o regime nazi e o comunista começava a traduzir-se na ocupação do país.

Menos de três meses depois, uma provocação na fronteira deu a Moscovo o pretexto para atacar a Finlândia. No Outono de 1939, Estaline tinha exigido concessões territoriais no istmo da Carélia e uma base naval em Hanko, apresentando-as como necessárias para a segurança de Leninegrado. O governo finlandês, temendo que essas exigências comprometessem a sua independência, não aceitou as condições soviéticas.

 

A 26 de Novembro, Moscovo anunciou que sete disparos de artilharia, provenientes do território finlandês, tinham atingido unidades soviéticas junto a Mainila, causando quatro mortos e nove feridos. Molotov exigiu a retirada das tropas finlandesas. Helsínquia rejeitou a acusação: segundo as verificações finlandesas, as suas baterias estavam demasiado distantes para atingir a aldeia. Propôs ainda uma investigação conjunta e uma retirada recíproca das forças. Moscovo rejeitou a proposta. A 28 de Novembro, denunciou o pacto de não agressão soviético-finlandês; a 29, interrompeu as relações diplomáticas.

 

A propaganda acompanhou a escalada. O Pravda e o Izvestija apresentaram o episódio como uma provocação dos dirigentes finlandeses e publicaram declarações de trabalhadores e soldados que exigiam uma resposta enérgica. A 30 de Novembro, o Exército Vermelho atravessou a fronteira e a aviação soviética bombardeou Helsínquia. Dava-se início à Guerra de Inverno. O estudo de Kati Parppei mostra como o episódio foi transformado num instrumento de mobilização e legitimação do ataque (https://www.arei-journal.pl/articles/display/69?utm_source=chatgpt.com).

 

Em 1939, era necessário organizar uma agressão simulada, preparar pistas falsas e confiar à propaganda a tarefa de impor uma versão oficial. Hoje, a guerra híbrida oferece uma variedade extraordinária de meios tecnológicos para alcançar objectivos políticos e militares semelhantes através do engano e da mentira. A guerra híbrida combina, de facto, pressões militares, ataques cibernéticos, sabotagens, chantagens económicas e operações de desinformação. O seu campo de acção abrange as infraestruturas materiais e a perceção dos acontecimentos. A inteligência artificial permite produzir textos em várias línguas, imitar estilos jornalísticos, criar imagens verosímeis e sintetizar vozes. Um vídeo manipulado poderia mostrar uma autoridade política a anunciar uma mobilização que nunca foi decidida; uma gravação falsa poderia atribuir a um comandante uma ordem que nunca foi dada. Durante uma crise internacional, mesmo um engano desmascarado poucas horas depois pode já ter alimentado o pânico, provocado reacções diplomáticas ou comprometido decisões urgentes.

 

O relatório conjunto Microsoft-OpenAI de 14 de Fevereiro de 2024 documenta a utilização de modelos linguísticos pelo Forest Blizzard, também conhecido como APT28 ou Fancy Bear, que a Microsoft associa aos serviços de informações militares russos e à unidade 26165 do GRU. A investigação no The Indian Express do jornalista Bijin José, “Russian espionage, dissident monitoring and AI cyberattacks: What Anthropic's report says”, apresenta casos de utilização da IA pela Rússia para espionagem, controlo de dissidentes, fraude e propaganda. Um precedente documentado é a operação de influência russa Doppelganger. Em Maio de 2024, a OpenAI informou que entidades ligadas à operação tinham utilizado os seus modelos para gerar comentários em vários idiomas, incluindo o italiano, traduzir e editar artigos e preparar conteúdos destinados a serem divulgados nas redes sociais (Relatório da OpenAI).

 

O perigo aumenta quando a falsificação acompanha um acontecimento real. Um corte de energia, um incêndio, um acidente ferroviário podem ser provocados deliberadamente e explorados para divulgar explicações inventadas, atribuir responsabilidades sem provas e sugerir que o governo está a esconder a verdade. Não é necessário que quem lidera a campanha tenha provocado o incidente: pode apoderar-se da sua interpretação.

 

É neste contexto que, mais de oitenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Polónia e os Países Bálticos, já vítimas do nacional-socialismo e do comunismo, voltam a viver sob a pressão da potência russa. A cortina de ferro que dividiu a Europa após 1945 caiu, mas a guerra contra a Ucrânia trouxe de volta a ameaça militar às fronteiras orientais da União Europeia e da NATO. Os drones e os ataques de Moscovo às suas fronteiras multiplicam-se, aumentando a cada dia a possibilidade de provocações e mentiras que tornam a escalada irreversível e incontrolável. A desinformação produz incerteza, o engano comprime o tempo do julgamento e hoje corre-se o risco de os homens perderem o controlo das suas decisões antes mesmo de perderem o controlo das suas armas. 1939 deveria ensinar alguma coisa. 

 

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Fonte: Corrispondenza Romana, 16 de Setembro de 2026

Tradução: Cristãos Atrevimentos

 

 

 

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