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Brasil à beira de uma decisão: Lula vacila – Flávio Bolsonaro pode vencer

10 de Setembro de 2026

Colaborador Externo

Colaborador Externo

Brasil à beira de uma decisão: Lula vacila – Flávio Bolsonaro pode vencer

João de Castanheda Lima

Nosso correspondente - Rio de Janeiro, Brasil

A corrida presidencial brasileira tem estado mais renhida do que nunca nos últimos meses. Luiz Inácio Lula da Silva foi durante muito tempo considerado o favorito. Mas essa vantagem já desapareceu.

Uma sondagem recente do Instituto [de sondagens] Veritá aponta Flávio Bolsonaro com 48,5% num eventual segundo turno, ficando Lula com 43,1%.

Uma sondagem, por si só, não decide uma eleição. Outros institutos consideram a corrida mais renhida. O Quaest aponta para um empate, o Datafolha para uma vantagem estreita de Lula, enquanto o Nexus/BTG coloca Flávio ligeiramente à frente.

No entanto, a mensagem política é clara: Flávio Bolsonaro pode tornar-se presidente do Brasil. Essa é a verdadeira novidade. Ainda há alguns meses, a sua candidatura era vista por muitos como tentativa de salvar o legado político do seu pai. Hoje, ele tem a possibilidade real de afastar Lula da Presidência. A menos que um acontecimento extraordinário altere completamente a campanha eleitoral, Lula e Flávio Bolsonaro irão defrontar-se no segundo turno, a 25 de Outubro.

Ninguém sabe quem vai ganhar. E quem hoje afirma saber está a confundir sondagens com adivinhação.

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Uma eleição diferente das outras

A eleição de 2026 não é simplesmente uma repetição de 2018 ou 2022. O Brasil continua profundamente polarizado. No entanto, a energia política mudou.

Em 2018, houve uma verdadeira mobilização conservadora. Milhões de brasileiros estavam fartos de uma esquerda política e cultural que, ao longo de anos, tentou impor como algo natural as suas visões sobre a sociedade, a família, a moral e a educação.

Jair Bolsonaro expressou o que os partidos tradicionais há muito já não se atreviam a dizer. Família. Religião. Autoridade. Segurança. Rejeição da ideologia de género. Resistência ao aborto. Luta contra o socialismo e contra o politicamente correcto. Essa foi uma razão fundamental para a sua ascensão surpreendente.

Em 2026, a situação é diferente: Lula continua a contar com um núcleo duro de eleitores fiéis. O mesmo se aplica ao bolsonarismo. No entanto, o grupo decisivo é constituído por milhões de brasileiros que não querem realmente nem Lula nem Flávio.

Os elevados índices de rejeição de ambos os candidatos demonstram isso claramente. A segunda volta poderá, por isso, funcionar menos segundo o princípio «Quem quero eu como presidente?», mas principalmente como «Quem é que, de forma alguma, não quero como presidente?»

Essa diferença é fundamental. O Brasil está a viver uma eleição de rejeições.

O difícil legado de Flávio

No entanto, a rejeição a ambos os candidatos não é idêntica. Lula é rejeitado por ser Lula. Pelo PT. Pela esquerda. Pela sua trajectória política de décadas. Pelo seu governo. Pelo retrocesso económico. E pela memória dos enormes escândalos de corrupção que continuam associados aos governos do PT.

No caso de Flávio Bolsonaro, a situação é mais complicada. Parte significativa da rejeição não se dirige a ele pessoalmente, mas ao seu apelido. Bolsonaro. É precisamente esse apelido que lhe abre caminho para a presidência. E é precisamente esse apelido que, ao mesmo tempo, lhe dificulta o caminho até lá.

Flávio tem, portanto, de realizar um feito político: tem de continuar a ser Bolsonaro e, ao mesmo tempo, deixar de ser Jair Bolsonaro.

À direita na economia, mais centrista em temas conservadores

Em matéria de política económica, a posição de Flávio é inequívoca. Ele situa-se à direita. Pretende limitar as despesas públicas, eliminar ministérios, reduzir cargos políticos, impulsionar privatizações e rever a carga fiscal que aumentou durante o governo de Lula.

O seu princípio básico de política económica é simples: o Estado tem de aprender primeiro a viver com menos dinheiro, antes de exigir ainda mais aos cidadãos. Isso distingue-o claramente de Lula.

No entanto, em matéria de política social, o quadro é diferente.

Flávio Bolsonaro continua a defender posições conservadoras, por exemplo, em matéria de aborto, drogas, política de segurança e nomeação de juízes para o Supremo Tribunal Federal. Mas não conduz uma «guerra cultural» conservadora ao estilo do seu pai. O movimento conservador abrangente que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018, não é o tema central da sua candidatura. Flávio situa-se aqui claramente mais no centro político. Isto não é um pormenor. É provavelmente parte da sua estratégia eleitoral. Ele pretende aproveitar o enorme potencial eleitoral do pai, sem, ao mesmo tempo, herdar toda a rejeição de que este é alvo. Desta forma, pode conquistar eleitores mais moderados que não querem Lula, mas que também rejeitaram Jair Bolsonaro.

No entanto, esta estratégia tem o seu reverso. Um candidato que se torna mais aceitável para o centro político pode parecer menos inspirador para a sua própria base conservadora.

É precisamente aí que reside o dilema de Flávio.

Jair Bolsonaro não foi eleito apenas porque milhões de brasileiros rejeitaram o PT. Foi eleito também porque muitos acreditaram que, finalmente, um político defendia de forma enérgica os valores que o establishment político há muito tinha abandonado.

Flávio herda esse público. Se herda também o seu entusiasmo, isso é outra questão.

O maior adversário de Lula chama-se memória

Lula possui enormes vantagens políticas.

Quase nenhum político brasileiro domina o sistema tão bem como ele. Lula compreende o Congresso. Compreende os partidos. Compreende os sindicatos. Compreende os empresários. Compreende os bancos. E, acima de tudo, compreende como funciona o poder em Brasília. Após quase cinquenta anos no centro da política brasileira, Lula conhece praticamente todas as portas – e sabe como abri-las.

Mas essa experiência tem um preço. Lula já não pode personificar a renovação.

Lula é sinónimo de continuidade

A isso acrescenta-se a corrupção. Do ponto de vista jurídico, a questão é clara: as condenações de Lula relacionadas com a Operação Lava Jato foram anuladas. Essas sentenças já não têm validade hoje em dia.

Politicamente, a questão é igualmente clara: um tribunal pode anular uma sentença. Não pode, porém, apagar a memória de um povo.

Mensalão. Petrobrás. Lava Jato. Estes casos de corrupção fazem parte da história política recente do Brasil. E fazem parte da percepção política de Lula. É possível anular sentenças. No entanto, não se pode determinar, por decisão judicial, do que um eleitor se vai lembrar no dia das eleições.

É precisamente por isso que o tema da corrupção continua a ser perigoso para Lula. Sobretudo porque a actual campanha eleitoral já está, mais uma vez, marcada por investigações, suspeitas e escândalos.

Banco Master, disputas em torno do Supremo Tribunal Federal, investigações contra figuras de vários quadrantes políticos – o Brasil voltou a entrar naquele clima político em que quase todas as semanas parece possível uma nova revelação. Numa corrida que poderá ser decidida por um ou dois pontos percentuais, um único escândalo comprovado de forma credível pode virar a eleição.

Dois modelos económicos

Na economia, a diferença entre Lula e Flávio é muito mais evidente do que em muitas outras áreas.

O modelo de Lula assenta num Estado activo. Os investimentos públicos, os programas de infraestruturas, a política industrial, os programas sociais e a intervenção estatal visam gerar crescimento. O problema é antigo. O Estado brasileiro gasta muito dinheiro. E quando as despesas aumentam, acabam por existir poucas opções: mais crescimento, mais dívida, impostos mais elevados – ou cortes.

O governo de Lula, evidentemente, não dá preferência aos cortes. Daí resulta, inevitavelmente, pressão sobre a receita.

O Estado determina as necessidades – e procura depois o dinheiro

Flávio pretende inverter o processo. Primeiro, o Estado deve poupar. Depois, os impostos poderão baixar. Parece banal. No Brasil, seria quase revolucionário. Pois grande parte do sistema político vive, há décadas, de um aparelho estatal cada vez maior.

Ministérios, repartições públicas, subsídios, programas especiais, cargos políticos e empresas públicas não constituem apenas um aparelho administrativo. Constituem também uma teia de poder.

Quem quer reduzir as despesas do Estado não luta, portanto, apenas contra números num orçamento. Luta contra interesses. A verdadeira questão não é, portanto, se o programa de Flávio parece economicamente plausível. A questão é: será que ele consegue impô-lo politicamente?

Quem é que o mercado segue?

Isto leva-nos a uma das questões mais importantes desta campanha eleitoral.

De que lado está o mercado? A resposta é: esta pergunta está mal formulada. O mercado não é um comité central político. É constituído por milhões de decisões tomadas por empresários, investidores, consumidores e aforradores.

É preciso distinguir isso do establishment económico-financeiro. Grandes bancos. Fundos. Conglomerados. Grandes grupos de interesse. Instituições com acesso directo ao poder político.

O mercado e o establishment não são a mesma coisa. Esta distinção é decisiva.

Para empresas produtivas, o programa de Flávio pode ser atraente. Menos impostos. Menos despesas públicas. Privatizações. Finanças públicas mais estáveis. Mais confiança. Mais investimentos. Mais crescimento.

No entanto, o grande capital financeiro consegue viver muito bem mesmo com um Estado dispendioso. Uma elevada dívida pública gera grandes mercados de obrigações. Taxas de juro elevadas geram rendimentos elevados. Um governo de esquerda não é, portanto, de forma alguma automaticamente inimigo do capital financeiro. Pelo contrário. Um Estado altamente endividado com taxas de juro elevadas pode ser excelente negócio para partes do sistema financeiro.

É claro que nenhum banco deseja a falência do Estado. Um devedor insolvente não tem valor. Mas entre um Estado sólido e um Estado falido existe um espaço muito vasto, no qual é possível ganhar muito dinheiro com a dívida pública.

E Lula oferece ao establishment ainda outra coisa: previsibilidade. Os grandes grupos económicos conhecem-no. Conhecem o PT. Conhecem Brasília. Conhecem os ministérios, as autoridades e o Congresso. Sabem com quem é preciso falar. Sabem quais as portas que podem ser abertas.

Flávio, por outro lado, promete mudança. É precisamente por isso que os grandes grupos económicos estão, neste momento, a dialogar com ambos os lados.

Flávio reúne-se com banqueiros. Lula reúne-se com banqueiros. Flávio reúne-se com empresários. Lula reúne-se com empresários.

Isto não é uma contradição. É gestão de risco. Ou, dito de forma mais simples: o establishment não aposta num único candidato. Protege-se contra ambos os resultados. Faz cobertura política. Pois o grande capital raramente coloca a questão: «Qual dos candidatos tem a melhor filosofia política?», mas antes pergunta: «Sob qual presidente podemos conciliar melhor influência, segurança e rentabilidade?»

A resposta ainda está em aberto.

Lula representa o conhecido

Essa é uma das maiores vantagens de Lula. E, ao mesmo tempo, a sua maior fraqueza. Ele representa o conhecido. Um Brasil com um Estado forte. Com forte mediação política. Com uma complexa rede de partidos, Congresso, administração pública, empresas e mundo financeiro.

Flávio, por outro lado, representa, pelo menos em parte, a promessa de mudar este sistema. Se ele conseguirá cumprir essa promessa, é uma questão totalmente em aberto.

Mas as eleições não se ganham apenas com base no que um candidato conseguirá efecivamente concretizar depois. Ganham-se também com base no que os eleitores acreditam que ele poderá mudar.

E depois surge o imprevisível

A seis semanas da segunda volta, o Brasil encontra-se, assim, perante uma situação curiosa: os finalistas parecem já estar definidos. O vencedor, de forma alguma.

A Veritá vê Flávio claramente na frente. A Quaest aponta para um empate. A Datafolha vê Lula ligeiramente à frente. A Nexus/BTG, por sua vez, aponta para Flávio.

Isto não é um caos estatístico. É a realidade de uma eleição em que poucos pontos percentuais fazem a diferença.

E em seis semanas podem acontecer muitas coisas. Uma má aparição na televisão. Um choque económico. Um escândalo. Uma decisão judicial. Novas acusações de corrupção. Uma crise internacional. Uma declaração imprudente. Um novo inquérito. Ou um acontecimento em que ainda ninguém pensa hoje.

Lula pode perder

Esta é a mensagem política deste mês de Setembro. Lula pode perder. Há apenas alguns meses, isso não era, de forma alguma, um dado adquirido.

Flávio Bolsonaro conta com o legado político do pai, com um programa economicamente mais liberal e com a possibilidade de, graças ao seu perfil sociopolítico mais centrista, alcançar eleitores para quem Jair Bolsonaro nunca foi aceitável.

Lula conta com o aparelho de Estado, décadas de experiência política, uma base social sólida e um talento extraordinário para se movimentar no seio da estrutura de poder brasileira.

Ambos podem vencer. Ambos podem perder. E é precisamente por isso que qualquer previsão categórica seria pouco séria.

Em 2026, o Brasil não vai decidir apenas entre a esquerda e a direita. Vai decidir entre a continuidade e a mudança. Entre dois altos índices de rejeição. Entre dois modelos de política fiscal. Entre uma estrutura de poder estabelecida há décadas e a promessa de, pelo menos, quebrar parte dela. E talvez, no final, seja decisivo algo que hoje ainda ninguém conhece.

Flávio Bolsonaro pode derrotar Lula,

Lula pode derrotar Flávio Bolsonaro

Tudo o resto, a seis semanas da segunda volta, não passa de especulação. Porque, na política brasileira, seis semanas não é muito tempo. São uma eternidade!

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