Já desde 2022, que na «Corrispondenza Romana» refutávamos a ideia de que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia era uma armadilha urdida pela CIA e pela NATO contra Vladimir Putin, com o objectivo de desestabilizar a região e alargar a Nova Ordem Mundial. Que as coisas não se passaram assim foi assunto documentado, baseado em factos e demonstrado por um dos maiores especialistas italianos em geopolítica, o Prof. Aldo Giannuli, no seu livro «Espiões na Ucrânia. Os erros dos serviços secretos russos e ocidentais, as causas e as dinâmicas ocultas da guerra» (Spie in Ucraina. Gli errori dei servizi russi e occidentali, le cause e le dinamiche nascoste, della guerra) (Ponte alla Grazie, Florença 2022, https://www.corrispondenzaromana.it/la-disfatta-dellintelligence-in-ucraina/). Quatro anos depois, a reconstrução de Giannuli é confirmada por outro especialista internacional, Shaun Walker, no seu ensaio aprofundado: «A guerra em que ninguém acreditava. Por que motivo Kiev e os serviços secretos europeus ignoraram os alertas sobre a invasão da Ucrânia» (La guerra a cui nessuno credeva. Perché Kiev e i servizi segreti europei hanno ignorato gli allarmi sull’invasione dell’Ucraina) (trad. italiana: Internazionale, Roma 2026).
Numa investigação baseada em mais de cem entrevistas a funcionários, políticos e diplomatas, Shaun Walker demonstra como, até aos últimos meses de 2021, a ideia de uma guerra em grande escala era considerada inimaginável no Ocidente. A CIA e o MI6 (os serviços secretos britânicos) eram os únicos serviços de inteligência que tinham identificado o risco de invasão, mas subestimaram os seus efeitos, prevendo vitória rápida da Rússia. Apesar dos avisos provenientes dos Estados Unidos e do Reino Unido, a maioria dos governos europeus, as autoridades ucranianas e uma parte da opinião pública não consideravam credível a hipótese de uma guerra em grande escala.
A incredulidade não se devia apenas a erros de avaliação, mas também a interesses políticos, económicos e psicológicos. Durante anos, vários países europeus tinham construído relações energéticas e comerciais profundas com a Rússia. Aceitar a ideia de uma invasão significava reconhecer o fracasso da política de diálogo e interdependência seguida após o fim da Guerra Fria. Os líderes da França e da Alemanha, Emmanuel Macron e Olaf Scholz, consideravam «tolice» a hipótese de um conflito . Os seus governos preferiam interpretar as ameaças russas como instrumento de pressão nas negociações, pois essa interpretação era mais compatível com as suas expectativas e interesses. Raciocinavam com base em critérios de conveniência económica e estratégica: uma invasão prejudicaria a Rússia, provocaria sanções devastadoras e reforçaria a NATO. O Kremlin, porém, como sublinha Walker, não agia apenas com base num cálculo convencional de custo-benefício. A liderança russa era influenciada por uma visão histórica e imperial sobre a Ucrânia, que era considerada parte da Rússia e fundamental para o seu estatuto de grande potência.
O próprio Zelenskyi estava convencido de que o alarme sobre a guerra era uma manobra dos Estados Unidos para pressionar a Rússia e, ainda assim, receava que os alertas públicos sobre a iminência da invasão pudessem provocar pânico, fuga de capitais, colapso da economia e desestabilização política. Por isso, procurou tranquilizar a população e evitar declarações que pudessem transformar a previsão do ataque numa profecia capaz de agravar a crise. Oleksij Reznikov, o Ministro da Defesa ucraniano, mostrava-se céptico quanto à invasão, mas quando, em Novembro de 2021, numa visita ao Pentágono, pediu aos americanos que enviassem mais armas e mais eficazes, para ajudar o seu país a defender-se, recebeu uma recusa categórica, com estas palavras: «Imagine que tem um vizinho a quem foi diagnosticado um cancro e que vai morrer dentro de três dias. [Quem se dispuser a ajudar] limita-se a oferecer-lhe compaixão, mas não os medicamentos mais caros». Os americanos e os britânicos consideravam a Ucrânia um Estado frágil e corrupto, incapaz de resistir a uma ofensiva russa e, por isso, ofereceram a Zelensky a possibilidade de se exilar e formar governo no exílio, o que ele recusou.
Giannuli reitera isso em novo livro: não só os serviços de informação europeus, mas também os serviços secretos russos erraram em todas as previsões, tanto quanto à capacidade de resistência ucraniana, como à atitude ocidental em matéria de sanções e de fornecimento de armas à Ucrânia e, pior ainda, demonstraram não ter qualquer percepção realista do grau de eficiência das suas próprias tropas («Os serviços secretos e a guerra» — I servizi segreti e la guerra, Ponte alle Grazie, Florença 2025). A invasão russa não provocou o rápido colapso da Ucrânia previsto por Moscovo. Kiev resistiu, o governo manteve-se operacional e a população reagiu à guerra com uma mobilização nacional. Também o Ocidente, inicialmente dividido e cauteloso, acabou por adoptar sanções e prestar apoio militar cada vez mais consistente à Ucrânia. A guerra alterou assim os equilíbrios europeus: reforçou a NATO, acelerou o rearmamento dos países europeus e colocou em causa a dependência energética da Rússia.
O ponto a que agora chegámos é este: a Rússia não pode dar-se ao luxo de perder a guerra. O Ocidente não pode permitir que a Rússia a vença. E a Ucrânia, por fim, não pode aceitar uma paz sem vencedores nem vencidos que, sob a aparência de um compromisso, consagre a mutilação da sua integridade territorial e da sua identidade histórico-cultural.
Para a Rússia, a derrota representaria o fracasso de todo o plano estratégico perseguido pelo Kremlin: demonstrar que Moscovo continua a ser uma grande potência capaz de alterar, pela força, os equilíbrios europeus. Uma derrota abalaria o seu prestígio internacional, mas teria também profundas repercussões na estabilidade interna do regime. Por isso, Moscovo só pode aceitar um acordo que lhe permita reivindicar, pelo menos, uma parte dos objectivos alcançados como uma vitória.
O Ocidente, por outro lado, não pode permitir que a Rússia vença, se por vitória se entender o reconhecimento das conquistas territoriais obtidas pela força e a transformação da Ucrânia num Estado subordinado a Moscovo. Tal desfecho comprometeria a credibilidade política e militar da Aliança Atlântica e encorajaria a Rússia e outras potências a perseguir os seus próprios objectivos, fazendo da Ucrânia o precedente para novas agressões.
O Ocidente depara-se, no entanto, com um dilema. Tem de fornecer à Ucrânia meios suficientes para impedir a vitória russa, mas receia que uma derrota total de Moscovo possa provocar uma escalada incontrolável, que possa desencadear o recurso às armas nucleares ou à desestabilização da Federação Russa. Desta contradição decorre uma estratégia muitas vezes hesitante: apoiar Kiev o suficiente para que não sucumba, mas não o quanto seria necessário para que reconquiste todos os territórios ocupados. Para a Ucrânia, por fim, uma paz que se limitasse a congelar a linha da frente não seria uma solução neutra. Isso transformaria as conquistas militares russas em facto consumado, deixaria milhões de ucranianos sob ocupação e daria a Moscovo o tempo necessário para reorganizar as suas forças.
Assim surge uma trágica situação de impasse: ninguém consegue aceitar a derrota, mas ninguém parece capaz de alcançar uma vitória completa sem correr o risco de provocar um alargamento do conflito. «Por enquanto, a única expectativa concreta é que a guerra termine, seja pelo colapso económico da Rússia, seja pelo colapso psicológico dos ucranianos» (Giannuli, «Os serviços secretos e a guerra», op. cit., p. 123). Entretanto, prossegue uma escalada bélica lenta, mas inexorável. Qual será o seu desfecho? Na história, acontece por vezes que os acontecimentos escapam ao controlo dos seus protagonistas e, impulsionados por uma dinâmica interna própria, acabam por se tornar incontroláveis.
Neste contexto, a 25 de Agosto, um avião militar norte-americano aterrou no aeroporto de Vnukovo, em Moscovo. A bordo encontrava-se o director da CIA, John Ratcliffe, que chegou à capital russa para uma série de conversações confidenciais com os líderes dos serviços secretos russos, entre os quais o director do FSB, Aleksandr V. Bortnikov.
Esta misteriosa missão lembra a realizada pelo seu antecessor, William Burns, em Novembro de 2021, enviada por Joe Biden ao Kremlin para comunicar a Putin que Washington tinha conhecimento dos preparativos para a invasão da Ucrânia e para o alertar sobre as consequências que daí adviriam. Três meses depois, a 24 de Fevereiro de 2022, as forças armadas russas atravessaram a fronteira ucraniana. O que teme agora Donald Trump e o que irá acontecer nos próximos meses? Só o futuro poderá revelar.
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Fonte: Corrispondenza Romana, 2 de Setembro de 2026
Tradução: Cristãos Atrevimentos