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A última Ave-Maria de Monsieur de Charette

02 de Setembro de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

A última Ave-Maria de Monsieur de Charette

Eram quase cinco da tarde do dia 29 de Março de 1796, quando François-Athanase de Charette, o heróico general da Vandeia, mais conhecido simplesmente como Monsieur de Charette, saiu da prisão de Bouffay para percorrer o último trecho do seu caminho.

 

Seis dias antes, tinha sido capturado nas florestas da Chabotterie, ferido e exausto, após três anos de resistência indomável. Agora caminhava em direcção à Place des Agriculteurs, onde o pelotão de execução o aguardava. Tinha trinta e dois anos e, durante três anos, à frente da insurreição da Vandeia, tinha mantido em xadrez os exércitos da República revolucionária.

 

Caminhava lentamente, devido aos ferimentos, mas com orgulho. O braço esquerdo estava imobilizado por uma faixa. Na cabeça, usava um lenço vermelho atado com certa elegância, quase como o último toque de garbo do oficial da marinha que fora, antes de se tornar o «rei da Vandeia». Charette recitava em voz baixa o Miserere, contando as contas do seu rosário.

 

Quando o cortejo entrou na rue de Gorges, o general ergueu por um instante os olhos para uma janela. A sua irmã tinha-lhe dito que ali encontraria alguém. Um ancião vestido de preto segurava na mão um lenço branco. Era um sacerdote refractário, fiel a Roma, não aos jacobinos, tal como aquele que caminhava ao seu lado, o abade Guibert.

 

Charette inclinou a cabeça. Atrás da janela, a mão do padre traçou no ar o sinal da cruz. Era a última absolvição.

 

A praça já estava próxima. Cinco mil soldados formavam um imenso quadrado. Dezoito homens tinham sido escolhidos para o pelotão que o iria fuzilar. Em frente ao muro já tinha sido colocado um caixão.

 

O abade que o acompanhava dirigiu-lhe algumas palavras de conforto. Charette respondeu-lhe com calma: «Desafiei a morte cem vezes. Agora vou ao seu encontro pela última vez, sem a desafiar e sem a temer».

 

Recusou a venda e pediu ao oficial que comandava a execução que lhe permitisse ser ele próprio a dar ao pelotão o sinal para disparar, depois de recitar uma última Ave-Maria. Foi-lhe concedido. Pronunciou em voz alta a oração, até às últimas palavras: «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora…». Aí parou, levantou a mão e deu a ordem para disparar. Dezoito balas atingiram-no. Caiu no chão, entregando a alma a Deus.

 

Charette tinha certamente pronunciado milhares de vezes na sua vida: Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Mas, até àquele dia, as duas palavras — nunc e in hora mortis — indicavam dois momentos diferentes. O nunc era o presente; a hora mortis pertencia a um futuro desconhecido. Perante as armas dos republicanos, pela primeira vez, já não existia distância entre os dois termos. Não tinha proferido as últimas palavras: «e na hora da nossa morte», porque a hora da morte coincidia com o agora, o momento presente. A Ave-Maria já não era um pedido para o futuro, tinha-se tornado a oração do presente. Todas as Ave-Marias da vida de Charette convergiam naquela última Ave-Maria, que terminava com a palavra «agora»…

 

O gesto de Charette continha uma profunda teologia espiritual.

 

Santo Afonso Maria de Ligório, nas Glórias de Maria, comenta assim as últimas palavras da Ave-Maria: «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte»: «Rezem sempre: rezem agora que estamos vivos, no meio de tantas tentações e perigos de nos afastarmos de Deus; mas rezem ainda mais na hora da nossa morte, quando estivermos prestes a deixar este mundo e a apresentar-nos perante o tribunal divino». O nunc é o tempo da batalha: «tentações e perigos de nos afastarmos de Deus». A hora mortis é o momento em que a batalha termina e o homem está prestes a ser apresentado perante o tribunal divino.

 

Sempre que rezamos a Ave-Maria, pedimos duas graças: a necessária para sermos fiéis no instante presente e a da perseverança final no último instante. Os dois tempos contidos na Ave-Maria são o nunc, o momento presente, e a in hora mortis nostrae. Maria deve assistir-nos agora, porque cada instante da vida está exposto ao perigo do pecado; mas deve assistir-nos sobretudo na hora da nossa morte, que é o instante em que a alma se separa do corpo, sai deste mundo e se apresenta perante o juízo de Deus. A hora da morte é a hora decisiva, aquela para a qual, num certo sentido, todas as outras horas nos preparam. A vida é uma sucessão de «agoras», até ao último «agora», aquele em que o nunc coincide com a hora mortis.

 

São Luís Maria Grignion de Montfort, o apóstolo da Vandeia, falecido em 1716, no seu «Segredo Admirável do Santo Rosário», comenta esse nunc, recordando que «não temos a certeza de nada, a não ser deste momento presente». «Rezai por nós agora», ou seja, durante esta vida breve, frágil e miserável; agora, porque não temos a certeza de nada, a não ser do momento presente». A hora da nossa morte — escreve ele — é uma hora «terrível e perigosa», na qual as forças do homem estão esgotadas, o corpo e o espírito estão abatidos pelo sofrimento e pelo medo e o demónio redobra os seus esforços, porque é precisamente nessa hora que se decide o nosso destino para toda a eternidade. Por isso, São Luís Maria pede a Nossa Senhora que afaste os demónios na hora da morte, que ilumine a alma das trevas que a envolvem e invoca-a dizendo: «Conduz-nos, acompanha-nos até ao tribunal do nosso juiz, o teu Filho».

 

O santo da Vandeia sugere também, na recitação do Rosário, uma pausa entre a palavra «agora» e a expressão «na hora da nossa morte». O nunc é o único tempo que realmente possuímos. Mas, entre todos os nunc da nossa existência, haverá um diferente dos outros: o último. A 29 de Março de 1796, essa pausa já não separava dois tempos diferentes. Para Charette, perante o pelotão de fuzilamento, esses dois tempos coincidiam: o nunc tinha-se tornado a hora mortis. Ao levantar a mão para dar o sinal de fogo, o general da Vandeia entregou assim, pela última vez, a sua alma a Deus.

 

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Roberto de Mattei - Substack, 17 de Agosto de 2026

Tradução: Cristãos Atrevimentos

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