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No segundo centenário do estudo sobre Revoluções, de F. von Gentz

29 de Maio de 2026

Corrispondenza Romana

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No segundo centenário do estudo sobre Revoluções, de F. von Gentz

Omar Ebrahime

 

 

            Há duzentos anos, em Abril de 1806, foi publicado o livro «Fragmente aus der neusten Geschichte des politischen Gleichgewichts» («Fragmentos da história recente do equilíbrio político [europeu]»), da autoria de um poliglota e antigo aluno do filósofo Immanuel Kant em Königsberg, o prussiano Friedrich von Gentz (1764-1832).

 

            Este livro, uma compilação de reflexões que tem como tema a preservação do equilíbrio político continental face às revoluções antigas e novas e aos seus líderes, a começar por Napoleão Bonaparte, serviria no futuro de base para a Restauração do concerto político europeu, sob o lema de um equilíbrio cuidadoso entre interesses opostos e do primado da Prudência como virtude fundamental na análise dos assuntos internacionais.

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            De notável influência na área linguística alemã – de Berlim a Viena, até Praga – onde o seu nome exerceria uma atracção duradoura sobre muitos maîtres à penser mesmo muito além da sua morte, von Gentz não conseguiria, por outro lado, influenciar os estudos europeus que contam, nem mesmo, paradoxalmente, aqueles que seriam mais evidentemente devedores da sua valiosa abordagem teórico-filosófica.

 

            Inicialmente tradutor para o alemão das célebres «Reflexões sobre a Revolução na França» (1790) do filósofo e estadista anglo-irlandês Edmund Burke, von Gentz deve a sua fama sobretudo ao seu ensaio comparativo detalhado entre a Revolução Americana e a Revolução Francesa, publicado em Berlim em 1800 no Historisches Journal, por ele dirigido (A Origem e os Princípios da Revolução Americana em Comparação com a Origem e os Princípios da Revolução Francesa). Trata-se de um texto literalmente «profético» em vários pontos e tão bem fundamentado na sua análise que acabou por chegar à secretária de John Quincy Adams, sexto Presidente dos Estados Unidos, que o mandou traduzir para inglês, chegando a declarar que aquele brilhante estudioso prussiano – futuro diplomata – tinha demonstrado conhecer o espírito profundo dos insurgentes norte-americanos muito mais e melhor do que estes se conheciam a si próprios.

 

            Teórico da filosofia realista aplicada à política (a chamada Realpolitik, entendida aqui no seu significado original de oposição fundamentada às visões utópicas da sociedade) e do conservadorismo clássico, von Gentz não foi apenas um estudioso extraordinariamente culto da «época das Revoluções» e um pensador versátil, mas também um incansável homem de acção. Inicialmente assistente do Chanceler austríaco Clemens von Metternich, como conselheiro e estudioso de ciências administrativas, tornou-se finalmente responsável pelo protocolo e, posteriormente, secretário-geral dos Congressos de Viena (1814-1815) e de Verona (1822), chegando a ser, de facto, um dos arquitectos da reconstrução da Europa pós-napoleónica. Relê-las hoje parece extremamente relevante por três razões, pelo menos.

 

            A primeira é a convicção — já corroborada na época por dados histórico-culturais objectivos — de que a civilização ocidental não é uma abstração fantasiosa, mas existe concretamente e se estende da Europa continental ao «Novo Mundo» da América. Uma extensão praticamente ininterrupta que remete, entre outras coisas, para as raízes culturais e espirituais comuns, como demonstra a própria fundação dos Estados Unidos, que inclui um importante contributo dos católicos (dos quais, aliás, nasceu, por exemplo, o actual Maryland), ainda que estes não constituíssem numericamente a maioria nos primeiros assentamentos da Nova Inglaterra no início do século XVII.

 

            A segunda razão é a redescoberta da melhor e mais profunda identidade europeia como berço do Direito natural, do exercício pré-político das liberdades concretas (reconhecidas pelo menos desde a Idade Média), do respeito pela dignidade da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus, segundo a teologia da Criação definida biblicamente pelo Génesis, e das tradições consuetudinárias que precedem cronologicamente a afirmação do direito positivo moderno.

 

            A terceira razão para a revisitação da obra de von Gentz é que o seu testemunho, apesar de certa comunicação mainstream tender a sustentar o contrário, ajuda a distinguir a Europa enquanto corpus de uma civilização espiritual orgânica — enraizada há mais de dois milénios nos fundamentos acima referidos — da Europa enquanto instituição, ou complexo de instituições jurídico-políticas, a começar pela actual União Europeia. Para dizer de forma sucinta: a Grã-Bretanha e a Suíça certamente não farão parte da UE, mas continuam ainda hoje a fazer parte da koinè cultural comum (dois países, aliás, que ainda hoje mantêm a cruz no centro das respectivas bandeiras nacionais, no primeiro caso, aliás, com uma profissão de fé repetida três vezes, uma vez que a famosa Union Jack não é mais do que a sobreposição da Cruz de São Jorge sobre a de Santo André e sobre a de São Patrício).

 

            O papel da Grã-Bretanha e da Suíça, em suma, tanto a nível sociocultural como geopolítico – independentemente da opinião que se tenha – revela-se certamente mais importante do que o desempenhado, por exemplo, pelo Luxemburgo, Chipre ou Malta juntos, que, pelo contrário, fazem parte da União há anos.

 

            Por último, numa época de escassez generalizada de ideias, lamentada também — por vezes — pelos melhores círculos intelectuais de referência, a trajectória biográfica e bibliográfica de Friedrich von Gentz permite redescobrir dois séculos da melhor escola conservadora, em sentido lato, da vizinha área germanófona, num fio condutor ideal que vai da época dos Habsburgos até à segunda metade do século XX, passando pelo filósofo político berlinense, mais tarde convertido, Adam Heinrich Müller (1779-1829) — de quem o próprio estudioso prussiano foi amigo e colaborador durante muito tempo — o padre redentorista vienense, posteriormente canonizado, São Clemente Maria Hofbauer (1750-1820), até ao pensador suíço contra-revolucionário Karl Ludwig von Haller (1768-1854), para chegar a autores mais próximos de nós e quase contemporâneos, como o jurista renano Heinrich Rommen (1897-1967) e o filósofo Dietrich von Hildebrand (1889-1977), cujo monumental trabalho de estudo e investigação a nível académico, ao longo de várias décadas – embora relativamente pouco conhecido do grande público – foi elogiado várias vezes por diferentes Papas contemporâneos (Pio XII chegou mesmo a defini-lo como «Doutor da Igreja do século XX»).

 

Em tempos de crise cultural, tudo isto, certamente, não é pouco.

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Publicado em: Corrispondenza Romana
Tradução: Cristãos Atrevimentos

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