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O dilema russo

29 de Maio de 2026

Valdis Grinsteins

Valdis Grinsteins

O dilema russo

            Há séculos que na Rússia existe um debate, em parte espiritual, em parte político, que pode ser resumido da seguinte forma: Deve a Rússia olhar para a Europa e imitá-la? Ou deve olhar para a Sibéria e construir algo diferente? O Czar Pedro o Grande construiu a cidade de São Petersburgo precisamente com o intuito de orientar a Rússia para a Europa. Mas já Estaline transferiu a capital de volta para Moscovo, em parte com o objectivo de se afastar da Europa.

 

            O debate complica-se quando analisamos o que significa olhar para a Europa. No passado, a Europa foi centro de civilização, de progresso material e de império da lei e da ordem. Agora, a Europa é um continente em decadência, cheio de absurdos ideológicos, mas que ainda possui grandes vestígios da antiga Civilização Cristã. Pode-se dizer que a alma russa está dividida, sentindo-se, em parte, atraída pela ordem da Civilização Cristã mas em parte desejando também regressar à brutal barbárie masculina dos impérios pagãos asiáticos.

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            Olhando para a Rússia à distância, poderemos dizer que o país está a voltar-se para a Sibéria? A verdade é que todos os indicadores apontam para o contrário. Os vícios da Rússia levam-na muito mais na direcção da Europa decadente. E, pelo contrário, está a perder a Sibéria aos poucos, inclusivamente no sentido mais literal da palavra, ao desdenhar a população russa e deixar que imigrantes, sobretudo chineses e coreanos, se vão estabelecendo gradualmente.

 

            Comecemos por explicar o seguinte: No Ocidente, chamamos de Sibéria a todo o território que vai desde os Montes Urais até ao Oceano Pacífico. Na Rússia, porém, faz-se uma distinção diferente. Para os russos, a Sibéria vai desde os Montes Urais até ao lago Baikal. Desde este lago até ao Oceano Pacífico é o Extremo Oriente russo. Cultural e estatisticamente, estão sempre separados na mentalidade russa. Mas para efeitos deste artigo, a Sibéria é todo o território para além dos Urais. E toda essa Sibéria, muito rica em recursos minerais, com vastas terras que podem ser exploradas economicamente apesar do clima, está a perder população e importância económica.

 

            É verdade que toda a Rússia se encontra numa situação demográfica lamentável, mas a Sibéria está ainda pior. Historicamente, a população só cresceu quando houve deportação de populações para lá. Hoje perde habitantes continuamente. Todos os planos para inverter esse processo têm fracassado. Por exemplo, o governo decretou que daria gratuitamente um hectare no Extremo Oriente russo a qualquer cidadão russo que o solicitasse e que nele permanecesse durante cinco anos. Cerca de 125 000 pessoas solicitaram terras, mas apenas 25 000 obtiveram título de propriedade. Todas as outras abandonaram a terra antes daquele prazo. Por que partiram e por que não se fixaram por lá? Ora, porque na Sibéria há muita violência. A economia das pequenas cidades é controlada por grupelhos de bandidos e a polícia não faz nada. Quem tem iniciativa e vontade de trabalhar, emigra à primeira oportunidade. As infraestruturas nessas localidades são deploráveis. A corrupção é endémica. O socialismo e a estagnação são asfixiantes. E o clima, bem... é siberiano.

 

            Para agravar este panorama, podemos incluir a guerra na Ucrânia. O governo russo oferece boa quantia de dinheiro a quem aceitar alistar-se no exército. Quantia que um siberiano normal levaria anos a conseguir, só que a guerra na Ucrânia tem sido um massacre contínuo para os russos, com mais de um milhão de mortos e de incapacitados. Embora a população da Sibéria represente apenas 15% da população russa, os siberianos constituem 25% de todas as baixas russas. E se antes já não havia dinheiro para o desenvolvimento da Sibéria, agora, com metade do orçamento russo dedicado à guerra, a Sibéria está a tornar-se uma ruína abandonada.

 

            Será que a Rússia se voltará para a Sibéria, afastando-se da Europa? Nada indica isso. Com excepção da luta contra Napoleão, a Rússia só trouxe infortúnios à Europa, especialmente através da propagação do comunismo. E parece determinada a continuar nesse caminho trágico, até que se cumpra a profecia de Nossa Senhora em Fátima: «A Rússia converter-se-á».

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