John Horvat
À medida que cresce o número de baptismos de adultos, muitos católicos regozijam-se com a perspectiva do que é definido como renascimento silencioso. É motivo de grande esperança ver tantos jovens ansiosos por se aprofundarem na fé.
É também motivo de grande mistério. Muitos bispos declararam-se surpreendidos e perplexos com a onda de novos convertidos que encheram as suas igrejas nesta Páscoa. Isto não fazia parte de nenhum programa de nova evangelização. Parece que ninguém tem uma explicação…
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O jogo dos números
A crítica mais comum dirigida ao renascimento espiritual baseia-se em números. Embora as dioceses registem um número recorde de conversões, os cépticos salientam que, por cada novo católico que entra entusiasticamente para a Igreja, muitos fiéis indiferentes abandonam a fé. Para eles, na batalha dos números, acabarão por vencer os que se afastaram da fé e na Igreja inevitavelmente diminuirá o número de fiéis. O renascimento não é certamente um ponto de viragem. O problema da refutação baseada em números é o pressuposto de que todas as conversões são iguais. Não leva em conta quem se está a converter e porquê.
As pessoas que surpreendentemente se convertem
Na verdade, o facto de católicos pouco praticantes e, muitas vezes, moralmente dissolutos, sem formação catequética, estarem largamente a abandonar a Igreja não é surpresa: trata-se de uma tendência em curso desde o Concílio Vaticano II. Esses católicos constituem o grupo demográfico mais propenso a abandonar a Igreja — e estão a fazê-lo.
O que torna extraordinários os números das conversões é o facto de os grupos demográficos menos propensos a serem atraídos pelo catolicismo estarem a entrar na Igreja, o que contradiz a narrativa progressista.
Entram com um entusiasmo e uma energia contagiantes, ansiosos por aprender. Entre eles encontram-se muçulmanos, não cristãos, pagãos, ateus, pessoas de esquerda, jovens, adultos jovens, libertinos, celebridades, elites, cientistas, filósofos e intelectuais. Até figuras protestantes se estão a converter, abalando os alicerces de muitas comunidades. Aqueles que teriam tudo a ganhar permanecendo no establishment querem agora sair dele. Querem contar as suas histórias e evangelizar o mundo.
Em suma, os números não são o factor mais importante no despertar.
Conversão por interesse?
Uma segunda forma de os cépticos refutarem a ideia de um renascimento é de natureza sociológica. Este método consiste em atribuir as conversões a factores económicos ou sociais. Para eles, a conversão é quase uma escolha de consumo orientada pelos benefícios que daí advirão. Um relatório do Pew Research, por exemplo, conclui que «cada vez mais pessoas começam a ver a eficácia e os benefícios da fé e da prática religiosa».
Por isso, alguns observadores pouco atentos rotularam o processo de conversão como «sinal distintivo da elite» e até mesmo símbolo de status. Tentam explicar as conversões afirmando que as pessoas encontrarão estabilidade, mitigação de riscos e comunidade na Igreja, o que, por sua vez, contribui para a sua prosperidade e para a conservação do seu estatuto de elite.
Mesmo as pessoas pobres podem sentir-se atraídas pela Igreja porque a paróquia é um local onde podem «entrar em contacto com pessoas ricas», o que aumenta as suas possibilidades de sair da pobreza. Assim, segundo estes comentadores, a conversão abre caminho para o sucesso.
Ross Douthat, colunista do New York Times, afirma que «ir à igreja está cada vez mais associado a níveis de instrução mais elevados, à ambição e à mobilidade social ascendente». Ele considera que as pessoas irão olhar para estes tempos como um «período de renascimento da elite» na religião, não necessariamente como um período de fervor.
O padre Thomas Reese, um progressista radical, interpreta, por sua vez, estas conversões como um regresso à tradição: «Os jovens de hoje dizem estar interessados na espiritualidade e ansiar ardentemente por uma comunidade… A Igreja Católica tem uma rica tradição de espiritualidade, mas tem de fazer mais do que limitar-se a repropor velhos produtos. A espiritualidade contemporânea deve ter em conta os desenvolvimentos da psicologia, da ciência e da cultura».
Esquecimento de Deus
Os cépticos estão a esquecer uma figura fundamental no processo de conversão: Deus. Comportam-se como se Ele não existisse. Deus é sempre o agente principal em toda a conversão autêntica. A Sua graça actua na alma daqueles a quem Ele chama. Quando o convertido corresponde a essa graça, a alma deseja Deus com grande fervor e está disposta a fazer qualquer coisa para alcançar a união com Deus, mesmo que isso implique a perda de todas as vantagens materiais e o rompimento de laços preciosos com os amigos.
A alma convertida torna-se capaz de superar obstáculos, mudar hábitos enraizados e realizar grandes feitos porque a graça sobrenatural opera no seu interior. O que torna tão espectacular a actual onda de conversões é que ela subverte todos os pressupostos, derruba os mitos liberais e reescreve narrativas há muito consideradas intocáveis.
Há algo de extraordinário em acção, que perturba muitas pessoas. Algo que pode até aterrorizar aqueles que relegaram a religião à irrelevância. Assusta os cépticos que não querem que as suas vidas complacentes sejam interrompidas por este «algo» que não conseguem definir.
O toque divino
Tudo indica que Deus está a agir na história, tocando directamente as almas mais improváveis nas circunstâncias mais secularizadas, chamando-as a rejeitar as filosofias modernas e pós-modernas que outrora tinham abraçado de todo o coração.
No seu livro autobiográfico-novelístico En Route, o autor do século XIX, J.K. Huysmans apresenta a cena em que o protagonista, Durtal, um escritor liberal e promíscuo, desabafa a sua pesada consciência a um sábio e velho padre. Durtal conta como chegou à Igreja por si próprio, sem um guia, depois de ter contemplado a sua sublime beleza enquanto visitava as igrejas. O padre fica surpreendido.
«A forma como a tua conversão aconteceu não me deixa qualquer dúvida. Houve aquilo a que o misticismo chama o toque divino, só que – nota bem – Deus dispensou a intervenção humana, até mesmo a interferência de um sacerdote, para te trazer de volta ao caminho que tinhas abandonado há mais de vinte anos.»
Talvez seja isto que os cépticos do despertar temem: este toque divino, que actua independentemente da acção humana e que muda tudo. A perspectiva deste «algo» divino pode muito bem intimidar aqueles que se entregaram ao pecado e à paixão desenfreada, embora se encontrem perante um Deus amoroso que deseja apenas o seu bem.
Num mundo liberal organizado como se Deus não existisse, este toque divino não tem lugar. Não pode ser explicado. Não deveria e não deve existir. No entanto, como descobriram os antigos romanos cépticos, pode mudar o mundo.
Fonte: Tfp.org, 20 de Abril de 2026. A tradução é da responsabilidade da nossa Redacção.