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Os Estados Unidos são o «Império do Mal»?

24 de Abril de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

Os Estados Unidos são o «Império do Mal»?

            O secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, ao participar na Conferência sobre Segurança, realizada a 14 de Fevereiro de 2026 no Hotel Bayerischer Hof, em Munique, proferiu um discurso extenso e bem estruturado, no qual reiterou que os Estados Unidos e a Europa fazem parte de uma única civilização e devem unir forças para combater os inimigos comuns, tanto internos como externos. No entanto, para muitos conservadores e católicos de orientação tradicional, os Estados Unidos constituem uma espécie de novo «Império do Mal».

 

            Martin Heidegger foi o filósofo que elaborou a forma mais duradoura do antiamericanismo nas suas múltiplas versões: os Estados Unidos como emblema da modernidade «catastrófica», dominada pela tecnologia, pelo consumismo, pela uniformidade e pela ausência de sentido histórico (cf. James W. Ceaser, A genealogy of Anti-americanism, «The Public Interest», Verão de 2003, pp. 3-18). Estas ideias, expostas pelo filósofo alemão na década de 1930, foram retomadas pelo nazismo e, após a guerra, pela esquerda europeia, tornando-se um pilar do pensamento antiamericano contemporâneo.

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            Sempre existiu um antiamericanismo de extrema-direita, aquele de quem não perdoa aos Estados Unidos terem determinado a derrota das potências do Eixo, com a sua entrada na Segunda Guerra Mundial. Este antiamericanismo ganhou hoje novo vigor em algumas formas de neonacionalismo populista, que propõem o fascismo e o nacional-socialismo como modelos políticos positivos.

 

            Houve também um antiamericanismo de esquerda que não perdoa aos Estados Unidos o facto de terem sido o baluarte anticomunista durante os anos da Guerra Fria, impedindo a vitória do comunismo internacional. Este antiamericanismo desenvolveu-se no movimento antiglobalização e no movimento pró-Palestina.

 

            Hoje, porém, juntou-se a isso um antiamericanismo de origem católico-conservadora que rejeita os Estados Unidos porque estes, devido à sua origem puritana e liberal-iluminista, representariam um modelo de pensamento antitético ao da tradição católica. Este antiamericanismo acompanha-se frequentemente de uma simpatia por regimes como a Rússia de Putin ou mesmo pelo Irão dos aiatolás, considerado um baluarte contra o Estado de Israel, expressão por excelência da essência negativa do Ocidente.

 

            No entanto, a superficialidade desta narrativa deveria saltar à vista. A Revolução Protestante não nasceu na América, mas na Europa, onde atingiu as suas expressões mais radicais com os anabatistas e os Levellers da Revolução Inglesa. Na América, puritanos, menonitas e quakers moderaram e não acentuaram as posições radicais que tinham assumido na Europa. A igreja evangélica constitui hoje um dos maiores reservatórios de votos conservadores para o Partido Republicano.

 

            A Revolução Americana, que antecedeu a Revolução Francesa, tem pouco ou nada a ver com a de 1789. A Declaração de Independência de 1776 afirma a existência de uma lei natural que precede o governo da sociedade, enquanto a Declaração dos Direitos do Homem de 1789 os fundamenta na pura autodeterminação da vontade.

 

            A Revolução Francesa foi essencialmente uma revolução ideológica, fruto do Iluminismo. A Revolução Americana foi sobretudo uma guerra de independência. O primeiro a ilustrar essas diferenças foi, em 1800, Friedrich von Gentz (1764-1832), secretário e amigo do príncipe Clemens von Metternich e um dos principais arquitectos da Restauração, após a queda de Napoleão (The American and French Revolutions Compared, Henry Regnery Company, Chicago 1955).

 

            Um dos mais perspicazes estudiosos de ciência política do século XX, Eric Voegelin (1901-1985), explicou que a Revolução Americana não foi um evento político de essência gnóstica, como a Revolução Francesa, porque «não foi um movimento ideológico no sentido das revoluções europeias subsequentes. Não pretendia criar uma nova ordem do ser, mas restabelecer os direitos dos ingleses que se consideravam violados» (The New Science of Politics, ed. University of Chicago Press, 1987 (reimpressão), p. 159).

 

            Foi a Europa que corrompeu a América, e não o contrário. O marxismo cultural que assola as universidades americanas desde 1968 não nasceu na América, mas na Alemanha, de onde Lenine o transplantou para a Rússia e a Rússia bolchevique, após a Revolução de 1917, o difundiu pelo mundo.

 

            A Revolução de 1968 teve início em Berkeley, mas o seu teórico, Herbert Marcuse (1898-1959), nasceu e morreu na Alemanha. A ideologia «woke» tem raízes europeias, através de Marx, Gramsci, a Escola de Frankfurt e o pós-estruturalismo francês.

 

            O «americanismo» condenado por Leão XIII com a encíclica Testem benevolentiae de 22 de Janeiro de 1899, mais do que uma doutrina, constituía uma espiritualidade da acção, que o modernismo desenvolveu de forma muito mais ampla e articulada, inclusivamente no plano teológico. A crise da Igreja actual é fruto do modernismo europeu, certamente não do americanismo. Um dos colaboradores mais próximos do cardeal Ottaviani foi o teólogo antimodernista americano John Clifford Fenton (1906-1969) e um dos cardeais mais próximos de Mons. Marcel Lefèbvre foi o cardeal americano John Joseph Wright (1909-1979).

 

            A encíclica Testem benevolentiae deve ser lida, além disso, em conjunto com outra importante encíclica de Leão XIII, a Longinqua Oceani, de 6 de Janeiro de 1895, na qual o Papa reconhece os aspectos positivos da experiência americana: o rápido crescimento do catolicismo nos Estados Unidos; a liberdade religiosa de facto, que permitiu à Igreja desenvolver-se sem perseguições; a iniciativa e o dinamismo da sociedade americana. Leão XIII não condena a América, nem a considera anticristã por natureza. O Papa afirma, porém, que a separação entre Igreja e Estado, tal como concebida nos EUA, deve ser considerada como um facto contingente, não como um ideal normativo universal.

 

            No plano político, além disso, os Estados Unidos de Clinton e Obama não são certamente os de Reagan e Trump. Falar de uma única América faz pouco sentido. Nos Estados Unidos, tal como na Europa, confrontam-se duas linhas culturais: a que se remete ao marxismo-iluminismo e a que, hoje prevalecente, reivindica as raízes cristãs da sociedade.

 

            No seu discurso em Munique, o secretário de Estado Marco Rubio expressou-se nestes termos: «Para nós, americanos, o nosso lar pode estar no hemisfério ocidental, mas seremos sempre filhos da Europa. (…) A nossa história começou com um explorador italiano que se aventurou no grande desconhecido para descobrir um novo mundo, levou o cristianismo às Américas e tornou-se a lenda que definiu a imaginação da nossa nação pioneira. (…) Foi aqui, na Europa, que nasceram as ideias que plantaram as sementes da liberdade e mudaram o mundo. (…) E é este o lugar onde as abóbadas da Capela Sistina e as torres altivas das grandes catedrais testemunham não só a grandeza do nosso passado, mas também o Deus que inspirou tais maravilhas.»

 

            Entre as catedrais americanas inspiradas nas europeias, destaca-se a de São Patrício, catedral de Nova Iorque. A decisão de a construir em «puro estilo gótico», segundo Bento XVI, não foi aleatória. O arcebispo John Hughes (1797-1864) «queria que esta catedral lembrasse à jovem Igreja na América a grande tradição espiritual de que era herdeira» (Bento XVI, Homilia na Catedral de Saint Patrick, em 19 de Abril de 2008).

 

            Na origem do antiamericanismo está, antes de mais nada, um problema de teologia da história. Leão XIV, Papa americano, recordou no seu discurso aos diplomatas, em 9 de Janeiro, a necessidade de reler «A Cidade de Deus» de Santo Agostinho. Mas se, em vez de usar as categorias de Santo Agostinho, quiséssemos usar as de Carl Schmitt, teríamos de dizer que o antiamericanismo católico nasce da incapacidade de definir o inimigo. E poderíamos acrescentar que não consegue definir o inimigo quem não reconhece e ama os seus próprios amigos, porque a confusão não nasce da ignorância, mas do amor mal ordenado. Santo Agostinho explica-o com uma das suas fórmulas lapidares: «Desordenada é toda a alma que ama o que não deve amar» (De Civitate Dei, XV, 22).

 

 

Publicado em: Corrispondenza Romana

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